O notável caso do Mikveh de Coimbra
No início desta semana foi inaugurado o Mikveh de Coimbra, passados cerca de 13 anos desde a sua descoberta fortuita na cave de um prédio da Rua Visconde da Luz, área onde se instalava parte importante da judiaria velha desta cidade. Tempo necessário aquele, com certeza, para todo um delicado processo de reabilitação deste importantíssimo achado arqueológico e respetiva qualificação para novo espaço musealizado da cidade, período ainda em que a Câmara Municipal de Coimbra adquiriu todo o prédio sob o qual o Mikveh se encontra, pois, de outra forma, sem intervenção e investimento públicos, seria muito mais difícil trazer de novo à luz este extraordinário bem histórico e cultural.
O que é um Mikveh, termo de que agora se tem falado tanto na nossa cidade e, parece-me, se falará ainda mais nos próximos tempos? Mikveh é um banho ritual judaico, de uso comunitário, para práticas de purificação espiritual e renovação, sendo um dos elementos mais antigos e centrais da vida judaica – societal e religiosamente falando – com regras muito específicas sobre como deve ser construído e utilizado.
A água corrente natural, de nascentes próximas ou da chuva, é um dos elementos fundamentais para a sua função e que enche, renovando-se continuamente, a “piscina”, elemento central deste ritual. Não é, por isso, apenas um banho higiénico, é um ato espiritual, ligado a pureza, renovação e transição, por isso a sua centralidade nas milenares e ortodoxas tradições judaicas. O de Coimbra é de origem medieval, estando identificado como em uso entre os séculos X e XIV, tendo sido encontrado em bom estado, porque soterrado e protegido durante várias centenas de anos.
Está assim acessível, a partir de agora, à comunidade local, aos visitantes e a turistas, este testemunho material da diversidade cultural e religiosa que marca a história de Coimbra ao longo dos séculos, permitindo ainda, pela sua localização e conservação, compreender melhor a organização da comunidade judaica coimbrã antes da expulsão dos judeus no século XV. As infografias interpretativas ao longo do estreito corredor de acesso às galerias principais deste equipamento, bem como as ilustrações multimédia que podemos visualizar na antecâmara de preparação dos banhos são, em si mesmo, uma “imersão” para o visitante sobre as formas de utilização do espaço. As visitas, solicitadas aos serviços da autarquia de Coimbra por telefone ou canais digitais, realizam-se em grupos de seis/sete pessoas de cada vez e com uma carga diária total de apenas 20 a 25 visitantes, o que se percebe bem e quando temos a oportunidade de ter esta inesquecível experiência, percebemos melhor ainda.
Recuperou-se assim, e de forma muito competente, uma parte relevante da herança e legado judaicos na cidade, património que é seu e do país, que pode assumir também um importante papel educativo, valorizando Coimbra como um destino turístico ainda mais atrativo e diferenciado, de memória e com memória, nomeadamente perante a diáspora Sefardita espalhada pelo mundo (judeus originários da península ibérica), emocionalmente ávida pelo acesso aos bens tangíveis e intangíveis da sua história e cultura. Em tempos conturbados, de tantas incertezas e angústias, que este seja um tema de aproximação, de tolerância e humanismo entre povos, evitando-se erros passados, infelizmente alguns também do presente, deixando nós um melhor legado civilizacional aos que nos sucedem.

