A história de quem fica
Jacqueline Kennedy Onassis faleceu há precisamente 32 anos. Jackie é o primeiro filme da trilogia de Pablo Larraín sobre mulheres icónicas do século XX.
Quanto mais filmes vejo, mais me apercebo de que as mulheres sempre seguem à frente. Não que o cinema sirva para nos ensinar alguma coisa, pois julgo que não será essa a sua principal missão; mas porque constrói janelas e nos calibra os olhos para atentarmos melhor no que nos rodeia. Sobretudo tem o poder de nos incluir nos vários mundos a que já quisemos pertencer, e de que ainda não sabemos fazer parte.
Jackie conta-nos uma das histórias que se passaram nos bastidores do assassinato de John F. Kennedy, o 35.º Presidente dos Estados Unidos da América: através de uma rapsódia sensorial a envolver os momentos vividos pela primeira-dama, Jacqueline Kennedy Onassis, após o golpe fatal contra o seu marido, vamos conhecendo quem ficou para trás. A narrativa sucede como consequência de uma entrevista dada ao jornalista Theodore H. White (Billy Crudup), em que a intimidade do luto da viúva é convidada a entrar pela primeira vez na esfera pública.
Poder-se-ia afirmar que o papel de Jackie encaixa na perfeição em Natalie Portman, mas julgo que aqui acontece o contrário: a atriz não só mutou o sotaque e a maneira de falar, que algumas vezes é arrastada pela sua figura indefesa para os papéis, como também transpôs essa fragilidade para alguém que a tinha na mesma medida que a coragem. Algo parecido já tinha acontecido, por exemplo, no clássico Léon, o Profissional, quando Portman tinha apenas 11 anos, e em que a sua personagem também se encontra a entrar nessa noite escura.
“Quanto mais filmes vejo, mais me apercebo de que as mulheres sempre seguem à frente”

Pelo menos até onde a capacidade da película de cinema permite, este drama intimista é contado na primeira pessoa, como é recorrente nos filmes de Pablo Larraín: close-ups e centralidade total na figura principal; decisões e desabafos expelidos em sussurros para mais ninguém ouvir; uma banda sonora minimal mas ensurdecedora e ofegante, como se estivéssemos enterrados debaixo de água a escutar o que acontece à superfície.
Importa salientar que os grandes filmes sobre JFK não são sobre ele. Em vez disso, andam em volta da sua ausência e do que ela causou, como já tinha acontecido no thriller épico de Oliver Stone. Se nessa obra se tinha conspirado sobre o ataque homicida, Jackie, por sua vez, debruça-se sobre decisões; a mais importante a ser tomada, tendo em atenção a segurança num pós-atentado, tem que ver com a forma como o funeral do Presidente vai acontecer: uma procissão a céu aberto ou um corredor de carros fúnebres.
“Não é à toa que as palavras serenidade e coragem se escrevem no feminino”
Praticamente toda a gente viva e com a consciência formada já viu alguma imagem do assassinato. Jackie seguia, no banco de trás, ao lado de JFK. Mas era como se ele fosse na frente, pois era em si que, como sempre, todo o foco estava.
Após o tiro, que desfez parte da cabeça do Presidente, a primeira-dama apenas se preocupou com os pedaços arrancados à cabeça do marido, tendo até admitido querer devolvê-los imediatamente ao seu crânio aberto. Desconfio que, se fosse ao contrário, as prioridades não seriam as mesmas: não é à toa que as palavras serenidade e coragem se escrevem no feminino.
Até na morte Jackie deixou o marido seguir à frente. Não porque almejava que ele visse as coisas primeiro. Mas porque as mulheres não precisam de ir na frente para já terem visto tudo.
