Precisamos parar de crescer? O debate que está a redefinir a economia no século XXI
Durante grande parte do século XX, o crescimento económico foi tratado como o principal indicador de progresso. Governos, empresas e instituições internacionais orientaram as suas políticas com um objetivo claro: aumentar continuamente o Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, a riqueza. No entanto, nas últimas décadas — e com particular intensidade no contexto da atual crise climática — esta visão tem vindo a ser profundamente questionada por economistas, cientistas e filósofos.
A ideia de que o crescimento pode, ou deve, continuar indefinidamente, num planeta com recursos finitos, está no centro de um dos debates mais importantes do nosso tempo.
Uma das correntes mais conhecidas neste campo é a do “decrescimento”, associada a pensadores como Serge Latouche e Giorgos Kallis. Estes autores defendem que, sobretudo nos países mais ricos, o crescimento deixou de traduzir melhorias reais no bem-estar. Pelo contrário, afirmam que o aumento contínuo da produção e do consumo tem contribuído para a degradação ambiental, o esgotamento de recursos e até para o aumento de problemas sociais.
Para os defensores do “decrescimento”, a solução não passa por crescer de forma diferente, mas por reduzir deliberadamente a escala da economia. Isso implica repensar profundamente o modo como trabalhamos, consumimos e organizamos a sociedade — privilegiando economias locais, reduzindo o tempo de trabalho e valorizando atividades não mercantis, como o cuidado e a participação comunitária.
Este tipo de crítica tem raízes mais antigas. Já em 1972, o relatório Limits to Growth, publicado pelo Clube de Roma e coordenado por Donella Meadows, alertava para os riscos do crescimento exponencial. Nele, os autores, utilizando modelos computacionais inovadores para a época, demonstraram que a combinação entre crescimento populacional, industrialização, consumo de recursos e poluição poderia levar, caso não fossem introduzidas mudanças estruturais, a um colapso dos sistemas globais ao longo do século XXI. Numa das passagens mais citadas do relatório, lê-se que “se as tendências atuais de crescimento continuarem inalteradas, os limites ao crescimento neste planeta serão atingidos dentro de cem anos”.
Embora inicialmente criticado por excesso de pessimismo, o relatório ganhou uma importância acrescida nas últimas décadas, à medida que indicadores ambientais, como as emissões de carbono, a perda de biodiversidade e o aquecimento global, confirmaram muitas das preocupações presentes no mesmo.
Mais recentemente, a economista britânica Kate Raworth apresentou uma abordagem inovadora com o modelo da “economia donut”. Neste modelo, a atividade económica deve situar-se entre dois limites: um “piso social”, que garante condições dignas de vida (como acesso à saúde, educação e habitação), e um “tecto ecológico”, que não pode ser ultrapassado sem causar danos ambientais irreversíveis. Como afirma Raworth, “o desafio do século XXI é satisfazer as necessidades de todos dentro dos limites do planeta”.
Apesar destas críticas, muitos economistas continuam a defender o crescimento, embora reconheçam a necessidade de o transformar. A chamada “economia verde” aposta na ideia de que é possível dissociar o crescimento económico do impacto ambiental através da inovação tecnológica, da eficiência energética e da transição para energias renováveis. Este conceito, conhecido como “desacoplamento”, é, no entanto, alvo de debate: alguns estudos sugerem que, à escala global, essa dissociação ainda não ocorreu de forma suficiente para travar a crise ecológica.
Paralelamente, cresce o interesse por modelos que procuram redefinir o próprio conceito de desenvolvimento. Em vez de medir o sucesso apenas pelo PIB, vários países e organizações têm vindo a adotar indicadores alternativos que incluem dimensões como saúde, educação, bem-estar e sustentabilidade. Exemplos, como o Índice de Bem-Estar Social, que leva em conta fatores como a saúde, a educação, a segurança e a participação cívica, desenvolvido na Nova Zelândia, ilustram esta tentativa de ir além da lógica puramente económica.
O debate sobre o “decrescimento” económico levanta também questões políticas e éticas profundas. Quem deve reduzir o consumo? Como garantir uma transição justa entre países ricos e pobres? Será possível manter níveis elevados de emprego sem crescimento? E que tipo de sociedade queremos construir?
Não existem respostas simples. O que parece cada vez mais claro, no entanto, é que o paradigma dominante está sob pressão. Entre a urgência climática, a instabilidade económica e as desigualdades persistentes, cresce a perceção de que o crescimento, tal como o conhecemos, pode não ser compatível com um futuro sustentável.
Num momento de incerteza global, repensar o crescimento económico deixou de ser uma discussão marginal. Tornou-se uma questão central para o século XXI — que poderá determinar não apenas o rumo das economias, mas as condições de vida no planeta nas próximas gerações.

