Álvaro Seco: parte um mestre, perdura uma escola
Em cinco anos de colaboração com o diário As Beiras, nunca me custou tanto escrever esta coluna. Este é o artigo que eu não queria escrever e para o qual nunca se está verdadeiramente preparado. Tive o enorme privilégio de aprender e conviver com o Professor Álvaro Jorge da Maia Seco. Homem de caráter reservado, o seu brilho intelectual tornou-o inevitavelmente uma referência da engenharia portuguesa.
Aprendi com ele em vários momentos da minha vida. Primeiro, como aluno no Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Coimbra (DEC-UC), onde me ensinou os fundamentos da engenharia de tráfego e da mobilidade. Depois, já no início da minha carreira profissional, quando me desafiou a colaborar, sob sua coordenação, no primeiro estudo de tráfego em que participei. Mais recentemente, como seu colega docente, uma forte preocupação com a articulação curricular. Mais importantes do que os conhecimentos técnicos, ficaram os valores: ética, responsabilidade, rigor e exigência.
Álvaro Seco assumia-se como engenheiro, privilegiando a investigação aplicada e a resolução de problemas concretos das cidades. Recordo a capacidade única de identificar os problemas de tráfego apenas pela observação, algo que os estudos técnicos mais tarde confirmavam, bem como a criatividade com que desenhava as soluções.
Natural de Moçambique e “filho” de Coimbra, deixa um legado que ultrapassa largamente esta cidade e a sua universidade. Pelo conjunto da sua obra técnico-científica e prática profissional, não será exagero considerá-lo um dos “pais fundadores” da engenharia de tráfego em Portugal.
Coordenou inúmeros estudos para a criação de normas nacionais e manuais técnicos, dos quais saliento o “Manual de Planeamento das Acessibilidades e da Gestão Viária”, de 2008. Composto por 13 volumes e mais de 800 páginas, aborda temas que vão desde a organização das redes viárias e o dimensionamento de interseções até a segurança rodoviária, a acalmia de tráfego e a circulação pedonal. Esta obra continua, ainda hoje, a ser referência obrigatória na formação de engenheiros de transportes em Portugal. Acresce que muitos dos atuais docentes destas disciplinas, em várias universidades portuguesas, foram seus alunos.
Trabalhou ativamente no planeamento de redes viárias e sistemas de transportes em cidades de Norte a Sul do país, com destaque para Porto, Vila Nova de Gaia, Viseu, Leiria e Setúbal.
Em Coimbra, assinalo três grandes contributos. O primeiro, no início dos anos 2000, quando planeou a estruturação da rede viária da cidade e a reformulação da interseção da Casa do Sal. A intervenção permitiu descongestionar aquele nó e melhorar significativamente a fluidez do tráfego durante mais de uma década (hoje em dia, decorridos mais de vinte anos, necessita novamente de uma intervenção, que se espera que venha a ser enquadrada no Plano de Pormenor de Joan Busquets).
O segundo grande contributo surgiu entre 2007 e 2010, enquanto presidente da Metro Mondego. Idealizou e promoveu um desvio ao traçado original, para garantir que o sistema serviria diretamente a Solum e os seus equipamentos. Essa decisão revela-se agora fundamental para o sucesso atual do Metrobus e terá impacto durante décadas. Na edição de 18.03.2026 deste diário demonstrei isso mesmo, no artigo intitulado “Metrobus: um nó para desatar o futuro de Coimbra”.
O terceiro contributo de relevo aconteceu já próximo de 2020, quando planeou a rede de transporte coletivo municipal, intermunicipal e inter-regional da CIM Região de Coimbra. A tudo isto soma-se ainda a definição dos princípios base para a futura reestruturação da rede dos SMTUC, cujo estudo está atualmente em curso (e cujos resultados deverão ser conhecidos em breve).
Na Universidade de Coimbra, entre vários cargos, desempenhou um papel determinante no desenvolvimento e afirmação da área de especialização em urbanismo, transportes e vias de comunicação.
Este poderá mesmo ser o seu contributo mais significativo e duradouro. Enquanto muitas instituições de ensino superior portuguesas não conseguem assegurar formação aprofundada nas áreas do planeamento de transportes e ordenamento do território, limitando logo à partida os seus alunos nestes domínios da engenharia civil, o DEC-UC destaca-se precisamente pela diversidade de atuação e qualidade da sua oferta formativa.
Hoje, esta área é das mais ativas do DEC-UC, tanto no ensino, como na investigação, e na prestação de serviços. Tem forte participação em três licenciaturas e três mestrados – engenharia civil, engenharia do ambiente, e gestão de cidades e engenharia de transportes – e oferece dois programas doutorais específicos – em planeamento do território, e em sistemas de transporte – para além dos de engenharia civil e do ambiente.
Até à reforma, Álvaro Seco coordenou ainda o grupo de engenharia e gestão de transportes do CITTA – Centro de Investigação em Território, Transportes e Ambiente – unidade de investigação que, em 2025, revalidou a sua classificação de Excelente e é líder nacional na sua área.
Partiu um mestre, mas permanecerá um legado e perdurará uma verdadeira escola de engenharia. Ontem, o Município de Coimbra aprovou, por unanimidade, atribuir-lhe a Medalha da Cidade. Muito bem. Saibamos honrar a sua memória.

