Pelos arrozais de Mai Chau
Avisaram-me que a subida à gruta de Chieu seria uma experiência penosa, já que uma parte substancial dos viajantes desistia a tempo de tal loucura. A forte humidade que se fazia sentir, sobrecarregada pelo termómetro a passar dos trinta graus chamavam à razão e faziam pensar duas vezes antes de aí se dar um primeiro passo. A previdência orientava-os para uma pequena esplanada ali bem perto para beber mais uma cerveja refrescante, uma sedução que era difícil de resistir até porque a arca frigorífica junto a uma pujante ventoinha soava a canto de sereia para o marinheiro mais incauto.
Mas mesmo assim decidi ir em frente, olhar para a enorme escadaria que mais parecia que tinha como destino o céu, já que os seus intermináveis 1200 degraus desapareciam no horizonte verde da floresta de Xa Pung. O suor escorria em bica e cegava os olhos envinagrados com um misto de salinidade e cansaço. Os pulmões também pedem uma pausa, e os músculos das pernas mostram-se solidários com a desculpa de limpar mais uma vez a face enquanto me viro para trás e contemplar o percurso que já fiz.
Cruzo-me com um casal que segue em sentido contrário. Não posso deixar de reparar na sua expressão de alívio. Eles sabem o que estou a pensar, e ainda antes de abrir a boca antecipam-se para me dar a boa nova de que falta pouco.
Valeu a pena o sacrifício. Do alto daquele monte, a vista para o vale de Mai Chau é impressionante, e com a luz suave de fim de tarde tudo ficou mais fotogénico. O sol a espelhar nos arrozais, onde pequenos pontos negros se mexem, que na realidade são os camponeses, foi uma das imagens que me ficaram dessa viagem.
Já era tarde para entrar no submundo que estas grutas escondem, mas ainda desci por parte desse enorme buraco onde a luz começava a deixar de se fazer sentir. A temperatura desceu à medida que me ia embrenhando naquele espaço que ia escurecendo como se desse início a uma expedição até ao centro da Terra, como Júlio Verne me fez acreditar na minha infância.
Senti-me no fundo de um poço, com um sol muito tímido a espreitar lá no alto, e não tinha equipamento para ir mais além, daí acalmar os ânimos e optar por regressar. Ao olhar para cima, ainda deu para puxar pelo zoom da câmara e fotografar a silhueta de quem partilhou tamanha loucura comigo, nesta e noutras aventuras da minha vida. (continua)

