Inflação: o fantasma volta a bater à porta
A estimativa do Instituto Nacional de Estatística para abril de 2026 deve fazer soar as campainhas de alarme. A inflação atingiu 3,4%, o valor mais alto desde o verão de 2023, em resultado sobretudo do aumento dos combustíveis e do cabaz alimentar— composto por 63 produtos essenciais, dos legumes e da fruta à carne e ao peixe — que encareceu cerca de 17 euros nos primeiros quatro meses do ano.
Esta escalada está diretamente ligada à ofensiva dos EUA e de Israel contra o Irão no final de fevereiro, que levou ao bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde circula 20% do petróleo e do gás natural transportados por via marítima em todo o Mundo. A instabilidade no Médio Oriente, agravada pelos ataques iranianos a infraestruturas energéticas da região, perturbou o comércio internacional de energia e elevou fortemente o custo do petróleo, com reflexo imediato nos transportes, na produção e na distribuição de bens. Em Portugal, altamente dependente de energia importada, fez-se sentir de forma rápida e transversal, aumentando os preços de quase tudo o que consumimos. E o efeito não se esgota aqui: a incerteza sobre o desfecho da guerra levou já o Fundo Monetário Internacional a rever em baixa as previsões de crescimento para o nosso país, sinalizando um risco real de travagem do consumo e do investimento.
Mais do que os números em si, importa sobretudo perceber o seu impacto no dia a dia das pessoas. O aumento do nível geral de preços não atinge todos por igual: famílias com rendimentos fixos, trabalhadores com salários baixos ou pensionistas são os primeiros a ver o seu poder de compra encolher. Quando o choque se manifesta no supermercado, na bomba de gasolina ou na fatura de eletricidade — despesas que não se podem adiar — é necessário fazer escolhas, os cortes são inevitáveis e a qualidade de vida deteriora-se silenciosamente.
Na União Europeia, muitos Governos adotaram medidas seletivas e temporárias para amortecer o impacto da guerra no Irão: reduções de IVA em alimentos essenciais, limites às tarifas de eletricidade, cheques‑energia para famílias vulneráveis, transportes públicos mais baratos e cortes fiscais nos combustíveis. E em Portugal? Num contexto em que as previsões apontam para uma inflação acima da média da zona euro — refletindo o peso elevado da energia e da alimentação no orçamento das famílias — a resposta tem sido mais cautelosa e centrada na redução do imposto sobre produtos petrolíferos, ficando aquém das ações concretas de vários parceiros europeus. Perante um “imposto oculto”, que não é votado no Parlamento, mas corrói salários, reduz poupanças e fragiliza a competitividade das empresas, é por demais evidente que não bastam ajustes fiscais pontuais…
No pós‑25 de Abril e até a adesão à CEE, Portugal conviveu com uma inflação elevada e persistente, que travou o crescimento e penalizou quem tinha menor capacidade de se proteger. Se o atual cenário se prolongar, é indispensável ir além da mera reação; o agravamento do custo de vida exige uma ação rápida, justa e proporcional, capaz de proteger os rendimentos das famílias, dar previsibilidade a quem gera riqueza e reduzir a fragilidade estrutural da economia. É essa capacidade de atuação que ditará se Portugal vai ser capaz de enfrentar este desafio externo com resiliência — ou se pagará demasiado caro por um conflito a milhares de quilómetros, mas que se faz sentir, todos os dias, no bolso de cada um!
