Empreendedorismo: persistir, decidir e avançar
Recentemente, recebi o Prémio de Empreendedorismo, atribuído pelo Diário As Beiras. É uma honra que me leva, inevitavelmente, a refletir sobre o que significa, de facto, empreender — não no plano teórico ou mediático, mas na prática exigente de quem constrói, decide e assume riscos.
Vivemos um tempo em que o conceito de empreendedor é frequentemente associado a figuras mediáticas, sobretudo no universo das tecnologias emergentes, nomeadamente a Inteligência Artificial, onde a regulação ainda não atingiu o grau de maturidade das indústrias convencionais. Este contraste cria uma perceção enviesada. Em Portugal, apesar de existirem casos de sucesso relevantes — as chamadas empresas gazela e Unicórnios — a realidade é que o ecossistema ainda é limitado quando comparado com geografias como os Estados Unidos, onde existe um ambiente político, cultural e económico mais propício ao desenvolvimento e escalabilidade.
Empreender em Portugal é, acima de tudo, um exercício de resiliência. É enfrentar inércias estruturais, lidar com incerteza permanente e tomar decisões frequentemente solitárias. A crença do empreendedor raramente encontra paralelo nos seus pares, por isso se utiliza uma frase conhecida no meio empresarial que gosto de citar” não me queiram confundir a cabeça com factos, pois já tomei uma decisão”, aquilo que para terceiros pode parecer risco, para quem está no terreno é simplesmente mais um dia de trabalho.
Neste momento, assistimos a um paradoxo estrutural: por um lado, há capital disponível; por outro, escasseiam projetos viáveis e, sobretudo, um ecossistema que permita transformar ideias em execução. A burocracia, particularmente em setores industriais com maior exigência regulatória, funciona muitas vezes como um travão ao desenvolvimento. Não questiono a necessidade de regulação — ela é essencial — mas sim a sua proporcionalidade e adequação à realidade produtiva.
Quando ultrapassamos essa primeira barreira, surgem outras: infraestruturas desajustadas, parques industriais concebidos sem compreensão das necessidades reais da indústria. Em muitos casos, parecem desenhados para atividades que não produzem impacto visível, como se a indústria tivesse de existir sem ruído, sem emissões, sem presença — quase como um conceito abstrato. Em qualquer novo projeto as Autoridades vincam bem a necessidade de serem aplicadas as melhores técnicas ou práticas disponíveis no mercado, e como seria essencial levarem ás instâncias próprias este mesmo rigor e, muitas vezes, bastaria uma visita a um pais europeu como Bélgica, ou Alemanha, e trazer consigo um caderno de encargos para infraestruturar de vez com preceito e eficiência.
Se queremos verdadeiramente reindustrializar a Europa e particularmente Portugal, aumentar a nossa autonomia económica e criar valor sustentável, temos de aceitar uma premissa fundamental: a indústria exige espaço, condições e enquadramento adequados. Não pode ser tratada como um incómodo a tolerar, mas sim como um pilar estratégico a potenciar.
Empreender, no fim, é isto: persistir apesar das fricções, decidir apesar da dúvida e avançar mesmo quando o contexto não é perfeito. É essa energia — esse “frenesim” — que alimenta quem não se resigna e que acredita que é possível construir, melhorar e deixar legado inspirador, para esta e gerações futuras.
