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Aprendizagens essenciais: ciência ou magia?

28 de abril de 2026 às 08 h45

A consulta pública sobre a proposta de revisão das aprendizagens essenciais do ensino básico e do ensino secundário, que por agora se encerra, é bastante reveladora sobre o nosso comportamento enquanto sociedade. Ao longo das últimas semanas, o debate sobre o assunto foi praticamente silente, com exceção das considerações sobre a remoção de um extraordinário escritor da lista de leituras obrigatórias. Essa discussão ilustra o bem conhecido (ab)uso dos temas educativos como campo de batalha entre extremistas de ambos os lados do espetro político. Mas não deixa também de representar a obsessão nacional pela discussão de todos os aspetos relativos ao ensino da língua e literatura. Ainda assim, não pode deixar de se estranhar a ausência da mínima tentativa de discussão das “aprendizagens essenciais” das disciplinas científicas.

Tal ausência revela primeiramente a confiança coletiva no trabalho dos professores e do ministério, o que é justo e positivo. Mas este silêncio revela também um preocupante desinteresse da sociedade civil (incluindo dos próprios professores) em discutir estas temáticas. E não é seguramente por falta de motivos para debate.

Considere-se o exemplo da disciplina Física-Química lecionada no terceiro ciclo do ensino básico. Os textos dos documentos em discussão devem infelizmente mais à lírica camoniana do que à secura dos textos newtonianos. Estando os alunos do 7º ao 9º ano a contactar pela primeira vez com estas disciplinas, numa fase precoce do seu desenvolvimento, esperar-se-ia que os programas e as “aprendizagens essenciais” fossem correspondentemente simples. Simplicidade que deveria ao mesmo tempo transmitir, sobretudo aos alunos cuja formação em ciência se limita ao ensino básico, uma ideia muito chã que levou milénios à humanidade para levar a sério: no diálogo entre factos experimentais e argumentos lógicos, o primado é sempre dos factos experimentais, que constituem os subtis alicerces de todo o edifício científico.

Ora as “aprendizagens essenciais” são o contrário disto: grandiloquentes e verbosas, ambicionam que no final do 3º ciclo os alunos fiquem “dotados de competências ao nível da literacia científica que lhes permitam a mobilização da compreensão de processos e fenómenos científicos para a tomada de decisão, conscientes das implicações da Ciência no mundo atual, de forma a exercerem uma cidadania participada”… Contudo, as atividades experimentais são reduzidas a mínimos sub-franciscanos e, quando aparecem, são de molde a motivar voltas na tumba ao próprio Newton. Pelo programa e aprendizagens, vão sendo introduzidos conceitos e palavrões técnicos literalmente “caídos do céu”, aparentemente desligados de qualquer concretização experimental, ainda que meramente referida. Mais do que “cidadania participada”, parece antes almejar-se a formação de futuros adeptos de teorias da conspiração.

O célebre autor de ficção científica Arthur C. Clarke afirmava que “toda a tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”. Se o leitor tentar olhar o seu quotidiano com os olhos de um antepassado de há meros dois séculos atrás, ver-se-á imerso num mundo de “magia” então inimaginável. A Física-Química do ensino básico não tem de explicar tudo. Mas não pode deixar de vincar na mente dos alunos que não se trata de magia, mas sim de tecnologia assente em descobertas fundamentais em ciência, que qualquer um pode reproduzir.

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