Quando estudar não chega para ficar
Com base no relatório da Organisation for Economic Co-operation and Development — Education at a Glance — é possível perceber como Portugal se posiciona face aos restantes países desenvolvidos no que diz respeito ao chamado “prémio salarial” do ensino superior, isto é, a diferença média de rendimento entre quem tem um diploma universitário e quem possui apenas o ensino secundário. Nos países da OCDE, esse diferencial ronda, em média, +54%. Em Portugal, contudo, o prémio é significativamente superior, situando-se perto dos 70%, o que coloca o país entre aqueles onde a educação superior é relativamente mais recompensada. Este padrão é típico de economias com maiores desigualdades salariais: quem tem qualificações superiores consegue distinguir-se mais no mercado de trabalho. Em contraste, países mais igualitários, como os do Norte da Europa, apresentam prémios salariais mais reduzidos, não porque a educação seja menos valorizada, mas porque as diferenças entre salários são estruturalmente menores.
Apesar deste diferencial relativamente elevado, Portugal continua a assistir à saída anual de uma grande massa de jovens qualificados. Estima-se que cerca de 30 mil jovens portugueses emigrem todos os anos, dos quais aproximadamente 30% possuem ensino superior. A explicação é simples: mesmo com um prémio salarial relativamente elevado dentro do país, os salários médios portugueses continuam muito abaixo dos praticados em muitos países de destino, como Alemanha, Reino Unido ou Países Baixos, frequentemente acompanhados por regimes fiscais mais favoráveis e maiores oportunidades de progressão profissional. Assim, o bónus salarial associado ao diploma universitário não é suficiente para tornar o mercado de trabalho português verdadeiramente competitivo. O resultado é um fenómeno persistente de saída de talento: estima-se que mais de 18% dos jovens portugueses entre os 15 e os 34 anos vivam atualmente no estrangeiro.
Esta realidade é profundamente penalizadora para o país. Por um lado, Portugal investe na formação de jovens altamente qualificados que acabam por colocar as suas competências ao serviço de outras economias. Por outro, o país continua sem conseguir absorver plenamente os seus próprios jovens: a taxa de desemprego jovem ultrapassa os 20%, revelando dificuldades estruturais na criação de oportunidades qualificadas.
O resultado é um paradoxo: tornámo-nos exportadores de mão de obra jovem e qualificada, ao mesmo tempo que importamos mão de obra pouco qualificada, muitas vezes de forma pouco estruturada e com mecanismos de integração insuficientes. Este processo tem alimentado setores de baixa produtividade e baixos salários, contribuindo para uma especialização económica de baixo valor acrescentado. No plano demográfico, o efeito é igualmente claro: uma população cada vez mais envelhecida, jovens com poucos incentivos para permanecer no país e políticas migratórias que, em vários momentos, parecem ter perdido capacidade de planeamento estratégico.
Perante este cenário, torna-se evidente a necessidade de uma política estruturada para os jovens em Portugal. Tal política deve olhar de forma integrada para vários desafios interligados: salários médios baixos, oportunidades de emprego qualificado, acesso à habitação, natalidade e gestão equilibrada dos fluxos migratórios. Sem uma estratégia coerente que torne o país mais atrativo para quem estuda, trabalha e quer construir um projeto de vida, Portugal continuará a enfrentar uma equação difícil: formar talento para o exterior, envelhecer internamente e depender cada vez mais de modelos económicos de baixo valor acrescentado. A verdadeira questão não é apenas quantos jovens saem… mas… quantos têm razões reais para ficar.
