A República do bom senso
Há algo de profundamente suíço em resolver dilemas políticos com um boletim de voto numa manhã de domingo. Enquanto noutras latitudes a política se faz de megafones e promessas inflacionadas, na Suíça faz-se em silêncio como quem está apenas a decidir se leva Gruyère ou Emmental.
Os referendos deste domingo dizem muito sobre o espírito do país. Não são apenas decisões técnicas sobre impostos, televisão pública ou fundos climáticos. São pequenas radiografias de uma cultura política muito particular, pragmática. Comecemos pelo mais revelador: a aprovação da tributação individual.
Durante décadas, o sistema fiscal suíço penalizou casais casados com dois rendimentos, um paradoxo num país que gosta de se apresentar como campeão da racionalidade económica. O voto de hoje corrige essa distorção. Não é uma revolução ideológica, é algo mais suíço: um ajuste fino da máquina. Mas se o eleitorado mostrou abertura para uma reforma fiscal sensata, foi muito menos generoso com duas ideias que implicavam mais intervenção pública. O grande fundo climático proposto pela esquerda caiu redondamente.
Não por rejeição da causa ambiental mas porque o suíço médio prefere políticas climáticas objetivas, não cheques em branco. Também a tentativa de reduzir drasticamente a taxa da televisão pública foi rejeitada. Aqui emerge outro traço curioso da mentalidade política local: desconfia-se do Estado, mas também se desconfia de enfraquecer instituições que ajudam a manter o equilíbrio do sistema. A SSR pode ser criticada, mas continua a ser vista como parte do tecido cívico do país. E depois há a decisão talvez mais simbólica de todas: consagrar o dinheiro físico na Constituição.
Num mundo obcecado com pagamentos digitais, criptomoedas e carteiras virtuais, os suíços fizeram questão de deixar escrito que notas e moedas não vão desaparecer. No fundo, o que este domingo mostrou é algo que a política europeia frequentemente esquece: os eleitores não são blocos ideológicos coerentes. No mesmo boletim de voto, um suíço pode aprovar uma reforma económica liberal, rejeitar um grande fundo estatal e defender a televisão pública.Não é contradição. É pragmatismo.


