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A República do bom senso

09 de março de 2026 às 11 h06

Há algo de profundamente suíço em resolver dilemas políticos com um boletim de voto numa manhã de domingo. Enquanto noutras latitudes a política se faz de megafones e promessas inflacionadas, na Suíça faz-se em silêncio como quem está apenas a decidir se leva Gruyère ou Emmental.

Os referendos deste domingo dizem muito sobre o espírito do país. Não são apenas decisões técnicas sobre impostos, televisão pública ou fundos climáticos. São pequenas radiografias de uma cultura política muito particular, pragmática. Comecemos pelo mais revelador: a aprovação da tributação individual.

Durante décadas, o sistema fiscal suíço penalizou casais casados com dois rendimentos, um paradoxo num país que gosta de se apresentar como campeão da racionalidade económica. O voto de hoje corrige essa distorção. Não é uma revolução ideológica, é algo mais suíço: um ajuste fino da máquina. Mas se o eleitorado mostrou abertura para uma reforma fiscal sensata, foi muito menos generoso com duas ideias que implicavam mais intervenção pública. O grande fundo climático proposto pela esquerda caiu redondamente.

Não por rejeição da causa ambiental mas porque o suíço médio prefere políticas climáticas objetivas, não cheques em branco. Também a tentativa de reduzir drasticamente a taxa da televisão pública foi rejeitada. Aqui emerge outro traço curioso da mentalidade política local: desconfia-se do Estado, mas também se desconfia de enfraquecer instituições que ajudam a manter o equilíbrio do sistema. A SSR pode ser criticada, mas continua a ser vista como parte do tecido cívico do país. E depois há a decisão talvez mais simbólica de todas: consagrar o dinheiro físico na Constituição.

Num mundo obcecado com pagamentos digitais, criptomoedas e carteiras virtuais, os suíços fizeram questão de deixar escrito que notas e moedas não vão desaparecer. No fundo, o que este domingo mostrou é algo que a política europeia frequentemente esquece: os eleitores não são blocos ideológicos coerentes. No mesmo boletim de voto, um suíço pode aprovar uma reforma económica liberal, rejeitar um grande fundo estatal e defender a televisão pública.Não é contradição. É pragmatismo.

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