Opinião: Travessas de hospitalidade
Chamam-se Alan e Ramia Ghunim, são um casal de refugiados sírios e vivem em Portugal há mais de dez anos. Li estes nomes e a sua história, há uns dias, numa reportagem. Nas últimas semanas, fomos assolados por relatos de caos e devastação, rasto das tempestades que têm estado a fustigar o país. Descrições de dor, desespero e medo do futuro. A desesperança é uma erva daninha que ocupa tudo. Ou melhor: quase tudo. Porque há sempre quem deixe espaço para semear esperança nos canteiros do mundo.
Os bombeiros de Pataias, em Leiria, não têm parado: entre inundações, telhados e muros ruídos, queda de árvores ou estradas obstruídas, o apoio às populações tem sido incansável. Verdadeiros heróis, há dias sem descanso, a trabalhar sem tempo para pausas ou mesmo para se alimentarem. Para além da falta de tempo há, ainda, a falta de condições: fazer refeições para centenas de bombeiros é difícil e, com falhas de eletricidade, não há como conservar a comida. Foi no meio deste cenário que Alan e Ramia decidiram intervir. Não foram os únicos: a ajuda tem vindo de todo o lado. As populações não têm faltado à chamada. Mas deixem-me falar-vos do Alan e da Ramia.
Este casal sírio mal fala português, mas, em certos momentos, não é preciso uma Língua comum para que os seres humanos se entendam. Alan e Ramia chegaram ao quartel com garrafões de água, papel higiénico, caixotes de bananas. E três travessas com uma refeição cozinhada pelas suas mãos: mandi de frango. Confesso que não conhecia e fui pesquisar: é um prato tradicional árabe, feito com arroz basmati bem temperado e frango marinado, cozinhado muito lentamente até que os sabores de todos os temperos – açafrão, cardamomo e cominho – apurem e se fundam. Todas as fontes referem o mesmo: na cultura árabe, este prato é um símbolo de hospitalidade. Alan e Ramia têm uma quinta perto de Pataias, um retiro de fim-de-semana, onde produzem mel e azeitonas, mas vivem em Lisboa, onde têm um restaurante de comida síria. São ambos engenheiros informáticos, mas a guerra obrigou-os a recomeçar e acabaram por se dedicar à restauração. Naquele dia, acordaram às 6 da manhã e conduziram quase 130 km para entregarem travessas de hospitalidade a quem zela por nós. “É tudo o que podemos fazer para ajudar”, disseram ao jornalista, como se fosse coisa de pouca importância. Prometeram voltar no dia seguinte e não duvido que cumpriram: sabem o que é ser obrigado a recomeçar. Só depois de entregarem os mantimentos aos bombeiros é que foram ver o estado da sua quinta: ficou destruída e vai ter de ser reconstruída – mais um recomeço para quem já conta tantos.
Na mesma reportagem que conta a história de Alan e de Ramia – e de tantos outros que apareceram para ajudar – um jovem bombeiro agradece emocionado: “o que eu quero mesmo é agradecer a toda a gente, porque eles têm as casas todas estragadas e vêm para aqui cuidar de nós”. Ia escrever sobre a falta de empatia gritante que tem marcado os últimos dias, muitas vezes vinda de quem nos representa e tem obrigação de amparar e proteger os cidadãos, especialmente nos momentos de maior fragilidade. Mas deixem-me, afinal, falar-vos do Alan e da Ramia e de tudo o que eles representam, de braços estendidos, a segurar travessas de hospitalidade, a mesma que receberam num país onde puderam recomeçar depois da guerra. Uma ilha de amor, sentido e esperança. Nenhuma pessoa é uma ilha isolada e algumas, com pequenos gestos, garantem que continuaremos a ser um arquipélago. Prefiro falar-vos do Alan e da Ramia – símbolo de todos os que ajudam – porque, em tempos de sombra, a voz do jovem bombeiro é a minha: o que eu quero mesmo é agradecer.

