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Quando a luz se apaga

05 de fevereiro de 2026 às 10 h43

No meio dos efeitos de uma tempestade que atravessa o país, um fenómeno meteorológico sem precedentes que assolou, em particular, a região de Leiria e Pombal de onde sou natural, é com preocupação que se constata a dificuldade em repor a normalidade nas infraestruturas de que mais dependemos. Refiro-me, naturalmente, à eletricidade, à água e às comunicações.

Ainda que muitos dos efeitos deste tipo de eventos extremos possam ser inevitáveis, sobretudo neste contexto de alterações climáticas com fenómenos destes cada vez mais frequentes, a verdade é que é nestes momentos que se expõem as vulnerabilidades de muitas infraestruturas do nosso país.

O impacto da destruição de linhas de alta e média tensão nas zonas afetadas é muito grande. E quando a eletricidade falha, não falha apenas a iluminação ou o nosso conforto em casa, falha toda a economia. Com a crescente aposta na eletrificação em praticamente todos os domínios – da mobilidade à indústria, passando pelos edifícios e serviços – é nestes momentos de crise que se repescam soluções – das barragens por construir à necessidade de repensar o modelo de desenvolvimento de toda a infraestrutura energética, tornando-a mais resiliente face a estes fenómenos meteorológicos extremos. A memória recente do apagão de 28 de abril de 2025 que paralisou grande parte do país e foi considerado o mais grave ocorrido na Europa em duas décadas permanece bem viva.

Esse episódio, tal como este atual, mostrou a nossa dependência da energia elétrica. Não é por acaso que volta a ganhar força a proposta de aproveitar a necessária renovação da rede elétrica para investir em linhas subterrâneas. Trata-se de uma solução mais cara, mas também mais resiliente, como demonstram exemplos já adotados noutros países europeus tal como sugeria esta semana a Ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho.

No domínio das telecomunicações, o cenário não é menos preocupante. A queda de postes, e a destruição de cabos resultam em falhas prolongadas, cuja reparação exige tempo e recursos. Neste contexto, outras soluções alternativas ganham relevância. As tecnologias de comunicação via satélite, apesar de algumas limitações, podem desempenhar um papel crucial como resposta de emergência ou mecanismo de redundância.

A sua principal vantagem reside na independência face às infraestruturas terrestres, permitindo restabelecer ligações mesmo em zonas severamente afetadas. Exemplo disso são as soluções Starlink que operam através de uma rede de satélites, algumas já em instalação neste momento nas zonas afetadas.

A urgência do restabelecimento das comunicações torna-se ainda mais premente quando se constata que o acesso às medidas de apoio às populações e às empresas para mitigar os efeitos da tempestade, recentemente aprovadas pelo Governo, pode depender, em muitos casos, de plataformas digitais, formulários online ou comunicações por correio eletrónico. Sem internet ou telefone, as empresas ficam impossibilitadas de processar salários, realizar transferências bancárias, contactar clientes e fornecedores. A economia local paralisa por ausência de conectividade.

A lição a retirar é clara: a dependência quase absoluta de eletricidade e comunicações tornou a sociedade mais eficiente, mas de alguma forma mais frágil. Investir em sistemas mais resilientes redundantes é uma necessidade estratégica. Porque as tempestades passam, mas se nada for feito, as vulnerabilidades permanecerão.

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