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Fachadas que mentem

29 de janeiro de 2026 às 12 h01

Já não mudo de casa há mais de 6 anos. Em Bruxelas, isso conta quase como estabilidade emocional. Não porque as casas sejam todas más – longe disso – mas porque procurar casa nesta cidade é um exercício de resistência psicológica e de resiliência.

E, sobretudo, porque em Bruxelas nunca se sabe o que está além de uma porta.

À primeira vista, há ruas inteiras de fachadas cinzentas, portas discretas, janelas iguais e uma certa austeridade. Mas basta alguém abrir uma dessas portas – e entra-se noutra cidade. Existem também alguns prédios, normalmente não muito altos, mas a maior parte da cidade tem ainda as típicas casas de 3 andares, outrora unifamiliares, agora divididas (ou não) em 3 apartamentos.

Atrás de uma fachada banal pode esconder-se uma pepita: vitrais de Arte Nova que filtram a luz, mosaicos geométricos antigos no chão, escadas em madeira com corrimões em ferro forjado, tectos altos e clarabóia. Podemos entrar num corredor imenso até uma casa encantada sem vizinhança, sozinha no meio dos jardins de todas as outras casas, fazendo-nos esquecer que estamos no meio da cidade. Claro, há casas mais convencionais e casas más: casas de banho fora do apartamento, duches na cozinha, linóleo e carpete, isolamento duvidoso. Mas com paciência (muita) e sorte (alguma) acabamos por encontrar a pepita que nos convém, ao gosto e ao orçamento.

Tenho para mim que Bruxelas é perita em esconder beleza. Por isso é que as pessoas que aqui passam brevemente não lhe acham particular interesse. Aqui, o belo não se exibe: só se revela com o tempo. E no fim, aprende-se a regra não escrita: em Bruxelas, não se julga uma casa pela fachada.

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