opiniao

(Quase) Sempre Online

04 de novembro de 2025 às 11 h52

Vivemos numa era que estar desligado (offline) se tornou uma exceção. Um estudo realizado pelo Pew Research Center nos EUA, em adolescentes com idades compreendidas entre os 13 e os 17 anos, revelou que 95% têm acesso a smartphone e quase metade dos adolescentes afirmou estar online quase constantemente. Numa década (2014-2024), esta percentagem praticamente duplicou: passou de 24% para 46%. Estes dados mostram uma tendência de crescimento do tempo passado online pelos adolescentes.

Mas a permanência excessiva online afeta também os adultos e tornou-se um fenómeno global. De acordo com os dados de 2025 da DataReportal (Global social media statistics), a nível global, o número de utilizadores de redes sociais cresceu de cerca de 2000 milhões em 2015 para mais de 5300 milhões em 2025; ou seja, quase dois terços da população mundial utilizam estas plataformas.

Estudos recentes demonstram que plataformas como o TikTok, Instagram e YouTube não se limitam a influenciar comportamentos, mas estão efetivamente a moldar o desenvolvimento cerebral dos mais jovens, afetando os circuitos de recompensa e criando condições de dependência digital.

A utilização problemática das redes sociais é especialmente grave em adolescentes e jovens adultos, que crescem num ambiente de estimulação digital contínua, expostos a notificações, algoritmos e ciclos de dopamina, que fragmentam a atenção e reduzem a capacidade de concentração, comprometendo a aprendizagem.

Convém recordar que as redes sociais foram criadas com o objetivo de ligar as pessoas entre si, encurtando as distâncias, fomentando o convívio e o contacto social. Mas atualmente verificamos existir uma situação paradoxal: quanto mais tempo passamos nelas, mais solitários e deprimidos nos sentimos.

Preocupado com este fenómeno — e perante o aumento do número crescente de casos de uso problemático das redes sociais observado na minha prática clínica — decidi escrever o livro “(Quase) Sempre Online”.

Um dos objetivos desta obra reside no compromisso com o rigor científico e na visão médica do problema. Embora não seja um tratado puramente académico, cada capítulo e cada afirmação estão sustentados por uma base de artigos científicos, bem como pelo próprio conhecimento clínico de que disponho como psiquiatra, e pela experiência pedagógica adquirida como docente universitário de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Apesar da complexidade do tema, procurei adotar uma linguagem acessível ao grande público. A estrutura do livro, com capítulos claramente definidos que abordam questões práticas relacionadas com este assunto, facilita a navegação e a compreensão progressiva dos diferentes aspetos do problema.

Numa altura em que se discute, em vários países, o aumento da idade mínima de acesso às redes sociais para os 16 anos, esta obra fornece diversos elementos científicos sobre o impacto da utilização destas plataformas na aprendizagem, violência e saúde mental de adolescentes e jovens, contribuindo de forma significativa para este importante debate.

Em suma, julgo que este livro é mais do que um alerta; é um guia lúcido para compreender as dinâmicas do mundo digital em que vivemos. O seu conteúdo não se limita a diagnosticar os problemas, mas também aponta caminhos para se desligar e viver melhor, explorando a responsabilização das plataformas digitais, dos políticos, dos pais e dos educadores, e sugerindo um equilíbrio e uma ética na utilização das novas tecnologias.

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao