(Quase) Sempre Online
Vivemos numa era que estar desligado (offline) se tornou uma exceção. Um estudo realizado pelo Pew Research Center nos EUA, em adolescentes com idades compreendidas entre os 13 e os 17 anos, revelou que 95% têm acesso a smartphone e quase metade dos adolescentes afirmou estar online quase constantemente. Numa década (2014-2024), esta percentagem praticamente duplicou: passou de 24% para 46%. Estes dados mostram uma tendência de crescimento do tempo passado online pelos adolescentes.
Mas a permanência excessiva online afeta também os adultos e tornou-se um fenómeno global. De acordo com os dados de 2025 da DataReportal (Global social media statistics), a nível global, o número de utilizadores de redes sociais cresceu de cerca de 2000 milhões em 2015 para mais de 5300 milhões em 2025; ou seja, quase dois terços da população mundial utilizam estas plataformas.
Estudos recentes demonstram que plataformas como o TikTok, Instagram e YouTube não se limitam a influenciar comportamentos, mas estão efetivamente a moldar o desenvolvimento cerebral dos mais jovens, afetando os circuitos de recompensa e criando condições de dependência digital.
A utilização problemática das redes sociais é especialmente grave em adolescentes e jovens adultos, que crescem num ambiente de estimulação digital contínua, expostos a notificações, algoritmos e ciclos de dopamina, que fragmentam a atenção e reduzem a capacidade de concentração, comprometendo a aprendizagem.
Convém recordar que as redes sociais foram criadas com o objetivo de ligar as pessoas entre si, encurtando as distâncias, fomentando o convívio e o contacto social. Mas atualmente verificamos existir uma situação paradoxal: quanto mais tempo passamos nelas, mais solitários e deprimidos nos sentimos.
Preocupado com este fenómeno — e perante o aumento do número crescente de casos de uso problemático das redes sociais observado na minha prática clínica — decidi escrever o livro “(Quase) Sempre Online”.
Um dos objetivos desta obra reside no compromisso com o rigor científico e na visão médica do problema. Embora não seja um tratado puramente académico, cada capítulo e cada afirmação estão sustentados por uma base de artigos científicos, bem como pelo próprio conhecimento clínico de que disponho como psiquiatra, e pela experiência pedagógica adquirida como docente universitário de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.
Apesar da complexidade do tema, procurei adotar uma linguagem acessível ao grande público. A estrutura do livro, com capítulos claramente definidos que abordam questões práticas relacionadas com este assunto, facilita a navegação e a compreensão progressiva dos diferentes aspetos do problema.
Numa altura em que se discute, em vários países, o aumento da idade mínima de acesso às redes sociais para os 16 anos, esta obra fornece diversos elementos científicos sobre o impacto da utilização destas plataformas na aprendizagem, violência e saúde mental de adolescentes e jovens, contribuindo de forma significativa para este importante debate.
Em suma, julgo que este livro é mais do que um alerta; é um guia lúcido para compreender as dinâmicas do mundo digital em que vivemos. O seu conteúdo não se limita a diagnosticar os problemas, mas também aponta caminhos para se desligar e viver melhor, explorando a responsabilização das plataformas digitais, dos políticos, dos pais e dos educadores, e sugerindo um equilíbrio e uma ética na utilização das novas tecnologias.


