Os primeiros passos (parte 14) Espanha–2000
Desenganem-se aqueles que imaginam uma viagem como uma epopeia polvilhada unicamente de grandes feitos. A verdade é que muitas vezes esta pode ser uma montanha-russa de emoções que nos vão consumindo em modo de passo de dança, conforme o ritmo da música dos episódios que se vão desenrolando ao longo do percurso. E isso não diminui a história em si que fica para contar. Antes pelo contrário, torna-a mais autêntica, mais próxima também de quem lê sobre as andanças alheias.
Depois de três semanas num contínuo exercício de desafio aos limites da resistência física e psicológica do corpo, a disposição não é a mesma. E se juntarmos a isso uma carteira onde o dinheiro começa a faltar, e a que se junta um estômago a reclamar por mínimos de calorias para assim dar indicação ao corpo para que possa continuar a sua marcha, tudo se complica.

Tudo isto somado às noites mal dormidas, seja em comboios, parques infantis, no meio de uma serra no sul de Espanha sob um calor abrasador, no chão frio de estações ou mesmo num parque de estacionamento, não será de espantar que tudo se encaminhe para uma anteporta de um desfecho pouco recomendável.
Estávamos no Sul da Península Ibérica, e apanhámos o ferry para Ceuta, mas não houve tempo para vislumbrar dignamente o seu património português, pois a embarcação regressava ao fim da tarde para Algeciras. Depois de comer algo para enganar a barriga, seguimos para a estação ferroviária, onde fomos informados que já não havia comboios para sair dali. Ficámos receosos, pois o ambiente que nos rodeava era assustador, já que éramos frequentemente abordados por gente pouco recomendável que nos tentava impingir, com uma insistência já preocupante, substâncias que não estávamos interessados em comprar.
Com medo, só queríamos mesmo sair dali, e o desespero pesou na decisão de, já sob o manto escuro da noite, optarmos por caminhar pela ferrovia para a localidade mais próxima. Fizemo-nos ao caminho, e queríamos ser o mais discretos possível, mas a zona por onde passámos tinha um coro de cães que fizeram questão de denunciar a nossa presença. Mas não podíamos parar, nem voltar atrás. Mas os nossos corações bateram ainda mais forte quando, no horizonte, numa ponte sobre o lugar onde iríamos passar, um carro parou e desligou os faróis, parecendo que alguém se preparava para nos fulminar com algum xeque-mate. (continua)
