Opinião: Linhares Furtado, 3 estórias
Tenho 3 estórias que traçam o perfil de carácter – profissional, amigo, de honra e humano – do distinto cirurgião de transplantes renais e outros, Linhares Furtado.
Ele veio para Coimbra estudar, no final da década de 50, vindo de S. Miguel, dos Açores, onde nasceu, no seio de uma família humilde.
O dinheiro não abonava e, por vezes, enviá-lo da sua Ilha para Coimbra, demorava. Um dia, precisando de algum e tendo, por acaso, passado por um serviço da UC, confessou a sua dificuldade financeira. Um dos colaboradores desse Departamento universitário puxou da carteira e entregou-lhe uma quantia.
Curioso, mais tarde, nas minhas funções de jornalista, ao entrevistar Linhares Furtado, ele falou-me desse episódio. Abraçou-me.
Mais tarde, quando da doença grave da pintora Maluda, fui ter com Linhares Furtado, informando-o que ela precisava de uma consulta. A primeira, foi no seu consultório na R. de Aveiro. Numa segunda, foi na casa dele, na rua da Emissora, como era conhecida. Tratou-se de uma conversa de novos amigos. Linhares Furtado, na sua postura de cidadão e médico humilde, entregou a Maluda uma pintura de sua autoria. Maluda, pessoa fria e rígida de atitude, agradeceu, dizendo: “Sabia que o sr. professor era um excelente zerzedor nas cirurgias, mas não o sabia artista. Tem aqui uma excelente obra, fico-lhe grato pelo gesto”. Maluda vinha desfeita, porque Linhares Furtado não lhe deu boas notícias.
A última estória. Viajei, em trabalho, ao Canadá. Visitei o Hospital da Universidade de London. Um reconhecido transplantador desse País, ao receber-me, elogiou Linhares Furtado que conhecia. E curioso: era casado com uma sra. de Cantanhede (penso que a memória não me atraiçoa). Já não me recordo o nome desse consagrado cirurgião.
Ficam estas notas sobre a vida académico-médica do prominente Professor Doutor Linhares Furtado, recentemente homenageado, com justiça e por mérito, em Coimbra. António Barreiros.
