Um novo ciclo de resiliência
Se há uma palavra que, nos últimos anos, tem vindo a ocupar cada vez mais o nosso léxico, é resiliência. Por um lado, talvez nos defina, de alguma forma, pela nossa capacidade de superar a adversidade. Mas tem surgido, com maior frequência, devido aos diversos fenómenos incomuns que temos vindo a enfrentar, desde a pandemia às tempestades, fenómenos raros que deixam marcas profundas nos territórios, nas infraestruturas, nas empresas e, claro, na população em geral.
Este termo surge de novo no agora anunciado programa PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência – um programa que surge como resposta à necessidade de reconstruir e tornar o território mais… resiliente.
No imediato, propõe um pilar para a Recuperação, centrado nas pessoas e no território. Reconstrução de estradas, pontes, reabilitação de escolas, equipamentos desportivos. Aqui trata-se de restabelecer a normalidade, devolver segurança às famílias e liquidez às empresas, reativar cadeias de abastecimento e proteger o emprego.
Indo para além da urgência, no pilar da Resiliência, assume-se em definitivo que os eventos extremos deixarão de ser exceção no futuro. E aqui surgem os necessários investimentos na modernização da rede elétrica, na redundância das telecomunicações, no reforço da cibersegurança. Tendo a tecnologia como suporte, integrando sensores, modelos preditivos face a riscos, sistemas de alerta baseados no uso de tecnologias inovadoras, incluindo a inspeção visual de infraestruturas (por drone). E instituindo testes de stress ao sistema energético que simulem cenários extremos (climáticos, cibernéticos, de instabilidade eletrotécnica), para monitorizar digitalmente as infraestruturas críticas e reforçar a capacidade de antecipar riscos e agir antes do colapso.
É, contudo, no eixo da Transformação que o PTRR apresenta maior ambição. A digitalização deixa de ser um complemento, com o estímulo ao reforço tecnológico das empresas, à adoção de IA, de soluções de cloud e de digitalização de processos produtivos. Na componente de promoção da Ciência e Inovação, o PTRR propõe uma reforma do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, reduzindo fragmentações e orientando o financiamento para as prioridades nacionais e regionais.
Exemplo disso é a nova Agência para a Investigação e Inovação (AI2) criada por fusão da Fundação para a Ciência e Tecnologia e da Agência de Inovação, que passa assim a assumir a gestão da política de ciência e inovação em Portugal. O desafio vem de longa data — alavancar o investimento em I&D e aproximar universidades, politécnicos, centros de investigação e empresas, promovendo investigação aplicada com impacto real na economia. O ensino superior e o ensino profissional são igualmente mobilizados para responder às novas necessidades, promovendo uma maior articulação com o tecido produtivo regional e criando polos universitários que funcionem como âncoras de desenvolvimento nas regiões afetadas.
Nascido da tempestade, este Plano promove um compromisso coletivo de investimento no conhecimento, no reforço da tecnologia e na preparação de instituições e empresas para um mundo que vemos cada vez mais incerto. Uma tentativa de procurar não apenas reparar danos, mas sim tornar, de novo, o país mais resiliente, mais capaz de enfrentar o futuro. Não basta repor o que foi perdido – precisamos de elevar o nosso patamar de desenvolvimento.

