Um crescimento divergente
Nas últimas décadas, o crescimento do PIB português tem, em vários momentos, superado o ritmo médio da União Europeia, sugerindo um processo de aproximação económica ao espaço europeu. Nos anos mais recentes, esta tendência tornou-se particularmente visível, com a economia portuguesa a registar taxas de crescimento superiores à média da UE. Parte significativa desta dinâmica resulta da forte expansão de setores ligados ao turismo e aos serviços associados, bem como da chegada expressiva de imigrantes que contribuíram para aumentar a população ativa e a capacidade produtiva da economia.
Portugal tornou-se, aliás, uma das economias europeias mais expostas ao turismo: o setor representa cerca de 15% a 16% do PIB, quando na média da União Europeia o peso ronda 9% a 10%, evidenciando o elevado graade especialização da economia portuguesa nesta atividade.
Contudo, esta leitura mais otimista torna-se bastante mais ambígua quando analisamos o PIB per capita, indicador mais diretamente associado ao nível de prosperidade dos cidadãos. Apesar do crescimento agregado da economia, Portugal continua a apresentar dificuldades em convergir de forma sustentada com a média europeia neste indicador e, em anos recentes, essa aproximação tem mesmo abrandado. Em termos relativos, o PIB per capita português situa-se hoje entre 80% e 83% da média da União Europeia, tendo registado alguma divergência desde 2023. Ou seja, apesar do crescimento recente da economia, essa dinâmica nem sempre se traduz numa aproximação consistente do rendimento médio por habitante face aos parceiros europeus.
Curiosamente, aqui ao lado, a economia espanhola tem vindo a apresentar um fenómeno semelhante, refletindo uma conjuntura económica comparável. A forte entrada de imigrantes, frequentemente integrados em empregos de baixos salários, e o peso significativo de setores de menor valor acrescentado, como o turismo e atividades conexas, ajudam a explicar esta dinâmica. Em termos simples, a economia cresce, mas o rendimento médio por pessoa não acompanha esse crescimento ao mesmo ritmo.
Paradoxalmente, neste mesmo período os salários têm registado aumentos relativamente robustos, em muitos casos superiores ao crescimento da produtividade. Para já, esta evolução não tem gerado desequilíbrios significativos, em parte devido ao dinamismo recente da economia e à recuperação do mercado de trabalho. Contudo, a prazo, um desfasamento persistente entre salários e produtividade poderá traduzir-se em pressões inflacionistas ou em perda de competitividade externa. Mais importante ainda, o atual padrão de especialização da economia portuguesa, fortemente ancorado em setores intensivos em trabalho e de menor valor acrescentado, tende a reproduzir estes mesmos dilemas. Se Portugal pretende convergir de forma sustentada com a União Europeia, será inevitável promover uma transformação estrutural da economia, apostando em atividades de maior valor, maior produtividade e numa efetiva valorização do trabalho.
Em última análise, o desafio que se coloca a Portugal é o de romper com um padrão de crescimento excessivamente dependente de atividades de baixo valor acrescentado e intensivas em mão de obra barata. Uma economia que cresce sobretudo pela expansão do número de trabalhadores, muitas vezes em setores de reduzida produtividade, dificilmente conseguirá convergir de forma sólida com os níveis de prosperidade europeus. O verdadeiro caminho para essa convergência exige uma transformação estrutural: investir de forma consistente em inovação, qualificação, tecnologia e setores de maior intensidade de conhecimento, capazes de gerar mais valor por trabalhador. Só assim será possível sustentar salários mais elevados, aumentar a produtividade e assegurar que o crescimento económico se traduz efetivamente numa melhoria do nível de vida dos portugueses. Sem essa mudança de rumo, Portugal arrisca-se a continuar a crescer… mas sempre aquém do potencial de prosperidade que poderia alcançar.
