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Três cartazes indignos em cada rua

01 de novembro de 2025 às 13 h17
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André Ventura começou a campanha para as Presidenciais e uma das suas primeiras ações foi espalhar cartazes alinhados com o seu habitual discurso racista, xenófobo e preconceituoso: “Isto não é o Bangladesh” ou “Os ciganos têm de cumprir a lei” são alguns dos chavões que lemos nos cartazes com o rosto do líder do Chega. A indignação não tardou: foram apresentadas queixas ao Ministério Público, por parte de quem considera que os cartazes violam a lei de não discriminação (de prevenção, proibição e combate à discriminação, em razão da origem racial e étnica, cor, nacionalidade, ascendência e território de origem) e há quem pondere avançar com uma providência cautelar para retirar estes cartazes e proibir novos do mesmo teor. Alguns juristas pronunciaram-se: uns acham que os cartazes não são ilegais, outros acham que há indícios de crime. Ventura parece situar-se numa zona ambígua no que diz respeito à Lei – sempre muito perto da linha vermelha, mas sem nunca a pisar – mas as suas intenções são evidentes. E é isso que deve preocupar os eleitores, na próxima ida às urnas: as declarações de Ventura são o seu cartão-de-visita e, legais ou ilegais, são no mínimo indignas. É este o líder que queremos?
Ventura recusa retirar os cartazes, escudando-se na “liberdade de expressão”, um conceito de que é grande apreciador, quando lhe dá jeito. E vamos conceder que ele até possa, legalmente, dizer este tipo de coisas. O que é que isto nos diz do candidato do Chega? André Ventura quer ser Presidente da República. É o mais alto cargo da República Portuguesa, o de Chefe de Estado, Comandante Supremo das Forças Armadas, garante da estabilidade e independência de Portugal e, acima de tudo, é o responsável por garantir o regular funcionamento das instituições democráticas. É o presidente de todos os cidadãos portugueses – de todos, por igual. Queremos mesmo deixar o mais importante cargo da nação nas mãos de alguém que se move a ódio?
É importante perceber se os cartazes são ilegais – se forem, é preciso agir. Mas se não forem, vamos dar-lhes espaço. Vamos olhar demoradamente para eles. Que este degradante cartão-de-visita do candidato do Chega sirva como apresentação daquilo que nos espera se tivermos o líder da extrema-direita ao leme do país. “Isto” é Portugal: um Estado de Direito que acolhe todos os que ajudam a construir o país democrático, livre e solidário com que sonhamos, com espaço, oportunidades e esperança para todos. Aqui, todos têm de cumprir a Lei e a Lei é igual para todos – não há uma Lei fraca com os fortes e forte com os fracos. “Isto” é um país com memória, que olha para a frente, sem saudosismos do tempo em que éramos nós o lugar de onde se saía para fugir à miséria – e em que estávamos muito mais perto dos países que hoje Ventura olha com sobranceria, do que do país europeu em que nos tornámos. Um país sem esperança, em que o contexto social de origem traçava o rumo dos que por cá nasciam, obrigando-os à mesma situação dos imigrantes que, agora, Ventura rejeita. Não precisamos de três Salazares, mas talvez precisemos de três cartazes indignos em cada rua para sabermos ao que Ventura vem. E para nos lembrarmos de onde viemos – desse lugar cinzento e sem esperança, para onde nunca mais podemos regressar.

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