Saúde e emoções
Diogo Cabrita - médico
Devassado por receio, saio de casa. O dia vai ser longo. As novas exigências pedem que fiquemos das 08 às 20. A produtividade tem sido uma tónica dos gestores. Não estão avaliados os resultados mas sim o número de saídas da lista de espera. A qualidade da performance e o grau de satisfação aferido pelo utente tem sido desvalorizado. Os artigos sobre estes temas rendem pouca audiência. Vou ansioso porque a doente é difícil. Dormi menos bem, porque imaginei que se esvaía. A cirurgia de algumas patologias é mais complexa do que mostra a televisão e a litigância é cada vez maior. Reli a operação, e revi os processos. De facto estive em casa bastante obcecado com a revisão anatómica do duodeno e da via biliar. Não há ninguém indiferente à morte do seu doente. Há quem ultrapasse de modo aparentemente frio e distante, mas a verdade é que o insucesso não se aprende. A frustração também se educa, mas ela é sempre uma força da treva na altivez quotidiana.
Sei que faço coisas invulgares para muitos mortais. Disseco de modo meticuloso a via biliar, exponho a artéria cística, a veia porta, retiro a vesícula do seu leito hepático, secciono parte do intestino e volto a anastomosar. Sei disso e sei dos hiperespecializados. Conheço as cirurgias cardíacas, cerebrais, transplantações e seu fascínio público. Também fiz salvamentos “in extremis” de acidentados, baleados e outros infelizes. Frustração maior que falhar, não conheço. O Rui que se esvaiu apesar das transfusões incontáveis. O Eusébio que na queda arrancou o fígado do lugar e chegou por milagre ao bloco, sem solução. O José que perdemos o controlo da veia cava inferior durante o procedimento e se nos morreu na mesa operatória. A Amélia que fez uma eclampsia pós parto e nada a conseguiu equilibrar. Todos me falaram esta noite. Tenho quatro marcações e este primeiro que me preocupa. Há este incómodo de ter mais três cirurgias. A primeira encheu-me a cabeça de desafios. O anestesista sabe as dificuldades colocadas pela insuficiência cardíaca. O laboratório sabe que podemos precisar de sangue desesperado. Porque não estou cómodo mesmo assim? É insegurança? Não sou inseguro, mas tenho medo que me corra mal, que me falhe alguma coisa, que encontre insuperáveis dificuldades. A anatomia não é sempre igual. As pessoas previamente operadas colocam mais desafios. A mestria da idade e da exposição é conhecer muitos procedimentos para cada surpresa. A qualidade máxima é conseguir responder com uma técnica, a uma doença que surpreende pela apresentação. Dominar muitas soluções e muitas patologias permite enfrentar cirurgias em lugares onde estamos sós. O conforto de ter outros especialistas, outros grupos para ajudar, se inadvertidamente se faz lesão de um ureter, ou se uma artéria maior rompe, isso só acontece nos grandes hospitais. Aqui onde trabalho, tenho de resolver as minhas limitações.
