Perguntas e respostas
Steven Spielberg regressa à ficção científica especulativa em “O Dia da Revelação”. A obra, protagonizada por Emily Blunt e Josh O’Connor, estreou-se a 10 de junho em Portugal.
O cinema de Steven Spielberg é um clarão atrás de um cortinado no qual estão desenhadas silhuetas indeléveis que esclarecem as questões que sempre nos fizemos mas nunca tivemos coragem de perguntar.
O seu mais recente filme, “O Dia da Revelação“, arrisca responder a uma das duas grandes dúvidas da humanidade. Sendo que a outra se prende com o que acontece quando morremos, Spielberg volta a implicar que não estaremos a sós no universo.
Para alguns esta será só mais uma incursão do realizador na ficção científica: desde o início da carreira que a possibilidade da existência de vida alienígena é tema recorrente na sua obra.
“Ainda assim, a sua longa filmografia é talvez a mais eclética e multi-género que conheço, resultado da mesma fórmula, mas com repercussões sempre distintas”

Um exemplo que nos ajuda a dar conta do seu valor foi a realização de A.I. – Inteligência Artificial, em 2001, ter-lhe sido confiada como um testamento pelo colosso Stanley Kubrick, que trabalhou no projeto durante 20 anos antes de morrer. Quando pensamos num e noutro, no que fizeram, conseguimos identificar o que os distingue: Kubrick levantava questões (basta lembrar os misteriosos 2001: Odisseia no Espaço e Eyes Wide Shut); Spielberg responde-lhes.
A história de “O Dia da Revelação” passa por Daniel Keller (Josh O’Connor), um especialista em cibersegurança tornado whistleblower por deter uma informação que, se for exposta, vai mudar o mundo. Numa narrativa ao início paralela, mas que adiante se encontra, Margaret Fairchild (Emily Blunt) é uma apresentadora de telejornal encarregada de informar os habitantes de Kansas City sobre o estado do tempo. Nada poderia haver em comum entre estas duas pessoas, não fosse uma força alienígena ter-se apoderado delas.
Tudo acontece nuns Estados Unidos da América não muito distantes dos atuais, e por isso Spielberg acaba por filmar uma história passada num país que já não é o seu. Quero com isto dizer que, pese embora o pendor mais patriota com que já desenvolveu as suas ficções, o cineasta está desencantado com o atual estado da sua nação. E por isso aproveita O Dia da Revolução para sugerir a ideia de que quem governa está a mentir ao mundo.
“Muitos alcoólicos bebem porque o mundo muito simplesmente lhes é insuportável; se pudesse adivinhar, diria que Steven Spielberg faz filmes pela mesma razão”

Esta obra vem lembrar-nos de que Steven Spielberg filma como ninguém: a câmara passeia-se de forma aparentemente livre, mas o caminho percorrido, que nos passa nos leitores oculares como uma criança feliz, foi todo pensado; a disposição dos atores pelo espaço é, como sempre, jogada de mestre, tal qual o engenho de um grandmaster a espalhar peças pelo tabuleiro de xadrez; para os mais interessados na narrativa e nos erros que quem pisa um terreno tão desconhecido pode cometer, é notável como o diálogo é servo da necessidade de contextualizar e impedir quaisquer dúvidas de crescer nesse terreno tão fértil que é o dos filmes especulativos.
Desengane-se, ainda assim, quem achar que alguma vez tudo é entregue à primeira: as histórias deste autor desenrolam-se como um novelo paciente, e o interesse gerado é a chama incansável que fica a arder para nos iluminar a curiosidade e nos ajudar a resolver as tramas em que estamos envolvidos.
Muitos alcoólicos bebem porque o mundo muito simplesmente lhes é insuportável; se pudesse adivinhar, diria que Steven Spielberg faz filmes pela mesma razão. A sua necessidade de desvendar o desconhecido terá surgido com o amor pelo cinema. O interesse que mantém na atualidade, em servir as suas histórias frescas, talvez esteja ajustado mediante a forma que arranjou de olhar o mundo. Mas tenho a certeza de que Spielberg continua a procurar responder às perguntas que se fez quando ainda nem sequer tinha coragem para as colocar.
