‘Rapper’ de Coimbra Gonçalo Guiné lança álbum de estreia “Vida num Loop”
Concerto de apresentação acontece amanhã no Salão Brazil | Fotografia: DR
O ‘rapper’ e produtor Gonçalo Guiné apresenta na sexta-feira o álbum “Vida num Loop”, uma estreia que representa quase dez anos de processo criativo de um veterano do hip-hop de Coimbra e figura interventiva na cena da cidade.
O álbum é apresentado na sexta-feira, no Salão Brazil, em Coimbra, em que Gonçalo Guiné se irá apresentar com banda, formato também presente no álbum e que transformou a própria sonoridade que o ‘rapper’ foi cozinhando ao longo de uma década.
“O disco é o culminar de dez anos de trabalho”, conta à agência Lusa o músico, referindo que o álbum reúne faixas criadas em diferentes momentos da sua vida enquanto artista que já anda nas lides do hip-hop há mais de 20 anos.
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O músico de 38 anos pertence a uma segunda geração de hip-hop em Coimbra, cidade que tem como maior referência o seu nome mais antigo no ativo, MC Ruze, rapper que ajudou Gonçalo Guiné a inserir-se no movimento.
Para Gonçalo Guiné, fazer parte da cena do hip-hop em Coimbra “é um orgulho e uma frustração, ao mesmo tempo”.
“Somos uma cidade pequena e, para a dimensão que a cidade tem, há muita arte. Mas depois os apoios, a hipótese que a cidade nos dá fica sempre um bocadinho aquém”, nota.
A sua geração ainda teve de ir para o Porto ou para Lisboa caso quisesse “realmente ser ouvida”, mas observa que as dinâmicas mudaram, com fenómenos como o Roda O Centro e a Clandestina (batalhas de hip-hop em que ajudou na organização), que têm posto Coimbra no radar.
Se antes, ser ‘rapper’ em Coimbra era “uma coisa muito solitária”, hoje fenómenos como o Roda O Centro agregam 150 pessoas à volta de uma batalha.
Na sua perspetiva, a cena “pode crescer mais”, notando passos importantes como MC Ruze estar agora envolvido na editora Segundo Piso, no Porto – um artista que “sofreu ainda mais” por crescer numa cidade com uma cultura de hip-hop com pouca expressão, constata.
No álbum que agora edita, o artista (que não sabe se é “’rapper’ com ‘beats’ ou produtor que rima”) apresenta a sua visão sobre o hip-hop e as mudanças no movimento, com “Até Parece” em que nota que “hoje tudo está na net” e que “procurar é o truque, fácil e acessível, já ninguém quer saber da RUC (Rádio Universidade de Coimbra)”.
Em “Vida num Loop”, surgem também críticas a uma sociedade na “era da pós-razão”, onde “o nazismo sorri pela televisão”, num álbum que tem como ‘single’ “Ódio”, dedicado à cidade de Coimbra: “Bem-vindo à terra que nunca muda”.
Nessa música, Gonçalo Guiné atira-se a uma cidade que vê como “fantasma de um sonho antigo”, ao mesmo tempo que critica “o cheio a mofo que paira pelo ar”.
Sobre Coimbra, o artista admite ter uma relação de “amor-ódio” com a cidade.
“É uma cidade que dorme à sombra do que já foi outrora, mas depois esta cidade também me deu imensas coisas e, nisso, sou extremamente agradecido”, conta o ‘rapper’, que vê uma cidade em tensão.
“Há uma elite que gosta de vender uma imagem muito antiga e não olha para ramos culturais novos a surgir. Esquece muito as margens”, constatou.
O ‘rapper’ aponta para o projeto MIC da produtora Blue House para impulsionar a carreira de novos talentos na região Centro como o momento de arranque da conceção do disco.
“Ganhei um bocadinho mais de embalo e decidi: ‘Vou fazer isto’”, conta.
Pegando nos ‘samples’ que produzia, abraçou um formato de banda ainda no MIC, estando agora acompanhado por Filipe Furtado, Paulo Silva e Filipe Fidalgo (além de Gonçalo Parreirão para o concerto de apresentação).
O disco começou a ser gravado em 2023, num processo com algumas regravações e trabalho de edição.
“Foi um processo simultaneamente criativo e de registo. Quando assim é, há sempre a necessidade de afastar, olhar de fora, para ficar minimamente coerente”, acrescenta o saxofonista Filipe Fidalgo.
Neste momento, os músicos ainda seguem a base de ‘samples’, mas no futuro, a ideia passa por se assumirem como “uma unidade viva”, afirmou Filipe.
A apresentação do álbum acontece na sexta-feira, às 22:00.

