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Portugal competitivo: da estratégia global à ação local (parte III) Coimbra: 4º lugar que inspira

10 de fevereiro de 2026 às 10 h15
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Nos dois artigos anteriores defendi que a competitividade é um jogo complexo, disputado em vários tabuleiros, que testa a capacidade de conceber e executar estratégias capazes de promover o desenvolvimento do país e dos seus municípios. Num momento em que episódios climáticos extremos tornaram evidente a urgência de fortalecer a coesão e a resiliência dos territórios, vale a pena olhar para o exemplo concreto de Coimbra.

O estudo do Instituto +Liberdade, que avaliou 186 municípios com mais de 10 mil habitantes em três dimensões – Famílias e Empresas, Serviços e Infraestruturas e Competitividade Envolvente – colocou Coimbra em 4.º lugar no Ranking de Competitividade Municipal em 2025, atrás de Lisboa, Oeiras e Porto. Sem grandes surpresas, a cidade destaca-se na área da saúde, onde lidera a nível nacional. Um resultado que reflete a excelência do centro hospitalar universitário, a qualidade dos hospitais privados, o elevado nível dos cuidados de saúde e da investigação biomédica, e o reconhecimento europeu na vertente do envelhecimento ativo e saudável. Mas este desempenho nasce de um ecossistema mais amplo e robusto, em que ensino superior, ciência, cultura e qualidade de vida se reforçam mutuamente. Coimbra dispõe de excelentes condições de partida e parte, assim, de uma base sólida: tem a maior concentração de talento e uma elevada qualidade de vida entre as cidades portuguesas de média dimensão.

A grande novidade dos últimos quatro anos foi o facto de o Município ter começado a jogar o “jogo da competitividade” em pleno, articulando as suas vantagens estruturais com uma política fiscal mais atrativa, assente na estabilidade, na previsibilidade e em incentivos ao investimento. Desde logo, manteve o Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) de prédios urbanos no mínimo legal de 0,30% – uma medida suportada numa dinâmica económica e de crescimento da população no concelho que compensaram a perda de receita associada a essa opção – e introduziu o IMI familiar em 2023, com deduções fixas por número de dependentes que representam uma poupança anual superior a 500 mil euros para as famílias de Coimbra.

No plano das empresas, foi reduzida para 1,45% a taxa máxima de derrama (sobre o lucro de empresas com volume de negócios superior a 150 mil euros), com isenções para PME que criem ou mantenham postos de trabalho, ligando assim a fiscalidade à criação de emprego local. O novo regulamento “Invest Coimbra” aprofunda esta lógica de competitividade territorial e representa uma viragem estratégica na forma como o Município capta investimento: prevê isenções totais ou parciais de impostos – IMI, derrama e IMT – e reduz taxas urbanísticas até cinco anos para projetos de interesse municipal (instalados em parques industriais, em áreas de localização de atividades económicas, ou que promovam a revitalização do centro histórico da cidade). Corta também em 50% a carga fiscal sobre startups e scale-ups – um incentivo pensado para atrair negócios inovadores e aliviar custos nos primeiros anos de atividade, em que é muito ténue a fronteira entre o sucesso e o fracasso.

Estas medidas articulam-se com o apoio à cedência de terrenos e infraestruturas para acolhimento empresarial e com a aplicação pioneira da “Via Rápida para o Investimento”, que acelera processos, agiliza licenciamentos e encurta prazos de decisão – critérios absolutamente decisivos para os investidores. A estratégia, construída com o envolvimento ativo dos principais parceiros do ecossistema de empreendedorismo e inovação, colocou Coimbra no radar do investimento direto estrangeiro e transformou-a – como nunca antes tinha ocorrido – num destino atrativo para seis multinacionais, instaladas desde 2022, que têm reforçado a sua presença no concelho e multiplicado postos de trabalho qualificados.

Ser o 4.º município mais competitivo de Portugal é motivo de forte orgulho, mas o caminho não termina aqui. Como ensina a sabedoria chinesa, “uma jornada de mil milhas começa com um único passo”; este impulso exige uma liderança política permanentemente comprometida, com uma visão de longo prazo e uma agenda de ação coerente.

Autoria de:

Miguel Fonseca

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