Opinião: Viver no espaço – Parte 2
No conforto do nosso planeta, acordamos, tomamos um duche, damos um passeio, bebemos um café, e talvez até reguemos a nossa horta. Não pensamos na gravidade, na pressão do ar, na transferência de calor, ou na dinâmica dos fluidos. Tudo funciona como sempre funcionou. Ora no espaço não é bem assim.
O simples caminhar requere gravidade que nos puxa para o chão. Na microgravidade do espaço, se dermos um passo, ficamos à deriva até batermos numa parede. É por isso que os astronautas “flutuam” e é por isso que as estações espaciais têm corrimãos por todo o lado. Não há “para cima” nem “para baixo”. O chão pode ser tecto e vice-versa. Uma consequência disto tudo é a degradação dos nossos músculos e esqueleto, que na Terra estão habituados a carregar o nosso peso.
No espaço, a água “agarra-se a si própria” devido à chamada tensão superficial. Uma torneira não pinga e um ralo não serve para nada. Uma gota libertada em microgravidade torna-se uma bolha flutuante que adere às superfícies e não escorre. Isto complica a limpeza (é preciso usar panos húmidos) e a higiene (o chuveiro não serve para nada – a água não cai), as sanitas (a sucção por vácuo substitui a descarga por gravidade), e o beber (os líquidos ficam nos pacotes).
Na Terra, o ar quente sobe por convecção e redistribui a temperatura. No espaço, não. O calor gerado pelo nosso corpo não sobe – fica à nossa volta, a menos que ventoinhas façam circular o ar. Cozinhar é difícil porque o calor não se propaga de forma previsível. E tudo aquece, porque dissipar o calor para o espaço é difícil porque no espaço não há nada que absorva esse calor.
Os nossos pulmões e tímpanos estão habituados à pressão atmosférica. No vácuo do espaço a pressão é praticamente nula e é necessário pressurizar os espaços habitados. Todas as escotilhas, luvas, janelas e fatos têm de ser extremamente bem vedados evitando que a bolha habitável se esvazie para o vácuo.
As plantas crescem para cima devido à gravidade, mas no espaço ficam sem saber para onde crescer; normalmente seguem a luz. As raízes também ficam confusas sobre para onde se desenvolver, e a rega gera bolhas de água à deriva.
Resumindo e concluindo: viver no espaço é possível mas a vida tal qual se desenvolveu na Terra não gosta. Na Lua e em Marte é um bocadinho melhor, mas tanto a gravidade como a pressão são demasiado fraquinhas. É preciso repensar, reformular e reimaginar tudo, desde camas a casas de banho, cozinhas e hortas. São precisos sistemas que simulem as condições na Terra, ou soluções ainda mais criativas. Aos nossos investigadores, inventores, designers e empreendedores: mãos à obra!
