Mas as crianças, senhores…
Escrevo este texto nas vésperas do 25 de abril. Recordo a quem já esqueceu que nessa altura cerca de 25% das nossas crianças eram analfabetas, muitas não iam à escola ou abandonavam-na para trabalharem e ajudarem ao sustento da família, rapazes e raparigas estudavam em turmas separadas, a mortalidade atingia 50 em 1.000 crianças, os castigos físicos eram tolerados, quando não incentivados.
A revolução de abril fez-se para dar paz e um regime democrático aos cidadãos de um país que fora afogado num regime político iníquo. Estas conquistas de um povo, em paralelo com as formas de viver em muitos países, fizeram-se em nome dos mais indefesos, dos mais novos, dos mais atingidos pelas agruras da vida. Mas eis que o mundo está em mudança, por força da ambição e da demência de uns tantos.
Neste mundo conturbado em que hoje vivemos, em que à boa maneira do velho oeste americano se dispara primeiro e se pergunta depois, eis-nos a conviver com um novo grupo de cobóis e de xerifes, sedentos de poderem ter uma arma mais poderosa do que a do vizinho do lado. Não é preciso lembrar os nomes dessa tropa fandanga, porque ninguém se esquecerá do sufoco que vive o mundo às portas da sociedade que se passeia na Lua ou que promete o céu a quem se mostrar cliente na mais próxima loja do armamento.
Exatamente neste mesmo mundo, ouvimos os xerifes falarem de estreitos abertos ou fechados, de hospitais vandalizados, de milhões de cidadãos sem água nem comida, mas os zelenquis, os trumpes, os putines, os netaniais e muitos outros olham para as mortes que as suas armas provocam como objetos que satisfazem as suas vaidades e os seus poderes.
Relatórios oficias informam que mais de 50.000 crianças foram mortas ou feridas na Faixa de Gaza, a que se somam mais de 38 mil mulheres e meninas que morreram nesta região do mundo. Em conflitos recentes no Médio Oriente, cerca de 350 crianças morreram, enquanto na Ucrânia, pelo menos 3.120 foram mortas ou feridas. Historicamente, a UNICEF estimou em 2 milhões as mortes infantis em conflitos nos últimos 10 anos.
Perguntamo-nos se estamos perante homens ou carniceiros que só se satisfazem quando veem o sangue das vítimas da sua desumanidade.
As crianças têm direitos consignados e aprovados pela larga maioria dos estados do mundo. A convenção sobre os direitos das crianças assume que o interesse superior dos mais novos deve ser considerado prioritário em todas as ações e decisões que lhes digam respeito. E a paz não o é?
Mais ainda: as crianças devem ter acesso a serviços básicos e à igualdade de oportunidades. Leia-se, o direito à saúde, à alimentação, à escolaridade, à habitação condigna. E a paz não o é?
É impressionante a forma como os políticos olham para estas questões que, no fundo, são as de todos os cidadãos que pretendem viver com tranquilidade, vendo assegurado o seu trabalho e as condições de existência.
Se as crianças de hoje são os adultos de amanhã, porque se trucidam os mais indefesos nas sociedades modernas?
A convenção sobre os direitos da criança tem 54 artigos que deveriam ser respeitados e cumpridos pelos xerifes.
Diz o leitor: sempre houve guerras e crianças a morrerem. É verdade. Mas as armas de hoje são mais letais do que nunca, os homens avançaram decididamente nas ciências e nas tecnologias, tudo isto para poderem viver melhor num mundo melhor. E os patrões do mundo fazem dele um lugar mal frequentado, onde é perigoso estar, porque o que hoje é bom pode muito bem amanhã ser detestável.
Em lugar de lutarem por uma paz duradoura, estudam a maneira de matar rapidamente mais seres humanos, com as crianças indefesas na primeira linha das espingardas e dos muitos artefactos de morte que por aí pululam.
E as crianças, senhores da guerra, quem olha por elas e se dispõe a criar um mundo onde possam brincar e crescer com escola, com saúde, com alimentação e tudo o mais a que têm direito.
Aqui deixo o meu grito em nome de todos os que acreditam que a paz se constrói dia após dia com a educação e a cultura a servirem de base a um mundo onde queremos viver.

