72 horas
Nos últimos dias, o Governo belga recomendou que cada cidadão esteja preparado para viver de forma autónoma durante 72 horas, em caso de crise. Água, comida, medicamentos, uma lanterna – um pequeno kit de sobrevivência doméstica, o suficiente para atravessar alguns dias sem apoio exterior.
Li a notícia e, sem grande planeamento, dei por mim na cozinha a olhar à volta e a abrir gavetas. O exercício é simples, mas inesperadamente revelador. O que tenho realmente em casa para três dias? Massas, arroz, alguns enlatados esquecidos. Claramente, há semanas em que estaria preparada. Noutras, não.
A recomendação pode ser sensata. Mas não deixa de causar um certo desconforto. Intrigada, fui à página de internet do “centro de crise”, onde as instruções sobre este “kit de emergência” são mais claras. Água. Uma lanterna – algures numa gaveta. Pilhas? Talvez. Um rádio? Não. Dinheiro em casa? Nenhum. Documentos importantes organizados num só sítio? Nem pensar. A lista continua: medicamentos, carregadores, velas, cobertores, um canivete, um apito. Um apito? Um apito!
Mais do que a lista, o que inquieta é o gesto. O Governo diz que não se trata de alarmismo, mas de preparação. Ainda assim, a simples existência deste tipo de orientação diz algo sobre o tempo em que vivemos. Porque viver numa cidade na Europa é viver na confiança de que tudo está disponível. Se falta alguma coisa, compra-se. Se há um problema, resolve-se. A ideia de depender apenas do que já está em casa, durante dias, parece deslocada no tempo. E, no entanto, aqui estamos, a fazer listas, a contar pacotes de arroz, a imaginar cenários em que a eletricidade, a água ou a rede simplesmente deixam de funcionar…

