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Opinião: Quid Petis? – A Cerimónia do Grau

25 de julho de 2025 às 16 h48
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Nos tempos em que ainda brilhava a Coroa sobre as Lusas armas de Portugal, havia na Universidade de Coimbra uma bonita cerimónia que populava a sociedade com Bacharéis e Doutores. Era a Cerimónia do Quid Petis, que formalizava o grau aquando do término do Bacharelato e Doutoramento.

Esta Cerimónia perdurou até 1905, quando foi decretado a abolição do grau de Bacharel. Esta abolição causou grande comoção na Academia que organizou um cortejo fúnebre de despedida, em jeito de festa Académica, intitulado “O Enterro do Grau”.

A atribuição do grau era envolta num rígido cerimonial dado ao Grande Acto que representava, que ainda hoje perdura. Após a conclusão das aulas em Maio, os Mestres da Universidade congressionavam sobre quem era admitido ao Acto. 48 horas antes do Acto, os alunos iam à Faculdade tirar “o ponto”, um papel que era sorteado por todos os admitidos e onde vinha escrito o tema da dissertação que teriam que apresentar. Nestes dois dias, dizia-se que o Estudante “entrava em oratório” pois era comum fecharem-se nos seus quartos sem sair de casa em orações de eloquência.

No dia do Acto, os alunos juntavam-se nos Gerais, e eram chamados pelo Bedel, que empunhando a Maça prateada da autoridade Minervense, chamava os alunos para a defesa. À entrada da defesa, o aluno recitava uma oração em latim que dizia algo do género: “Depois de tantos e tão grandes trabalhos, chegou finalmente o dia em que junto de Vós devo prestar contas dos meus estudos.”

O aluno procedia então à defesa da dissertação perante um júri de quatro lentes. O resultado da defesa era anunciado através do Bedel que lia o voto do Júri que colocava numa urna um “A” de aprovado ou “R” de reprovado. Dois ou três “R’s” implicavam o chumbo do aluno.

Após defendidas todas as dissertações (que ocupavam os meses de Junho e Julho todo) decorria então, finalmente, a Cerimónia do Quid Petis. Na Sala dos Capelos reuniam-se os Lentes da Faculdade, envergando todos o hábito talar e insígnias e o Reitor, ou o Decano da Faculdade, procediam à atribuição dos graus. O aluno era chamado a ajoelhar-se no degrau da cátedra sob uma almofada da cor da Faculdade e o Lente perguntava: “Quid petis?” (Que pede?), devendo então responder o graduado com “Gradum doctoratus in preaclara …[Faculdade: “Iurisprudentiae Facultate” para Direito ou “Sacrosancta Theologia” para Teologia]”. O Lente respondia depois com o seguinte Latinório: “Ego Doctor Fulanus in Alma Conimbrigensi Academia Rector, auctoritate mihi comissa, creo te doctorem in [Faculdade]…” assim como mais uns refrões ligados à religiosidade Universitária.

Após esta récita tirava da sua cabeça a borla e tocava com ela no capelo do graduado fazendo o sinal da cruz com a outra mão. Erguendo-se o aluno, agradecia em latim (vou poupar ao leitor esta parte) e ascendia às Cátedras da sala, onde se ia sentar junto dos pares, no lugar mais distante. No decorrer do Quid Petis, era também atribuído a cada novo Doutor um Padrinho na Universidade, que, à falta de voluntários, era o Decano da própria Faculdade. Nalguns casos, o novo Doutor era também chamado a proferir a oração “Munus Docendi” (Ministério da Docência), recitando uma breve explicação da sua área científica, acto hoje intitulado por “Oração de Sapiência”.

Para alguns a Cerimónia era vista com grande importância e simbolismo, outros era um natural alvo de sátira sendo coloquialmente referida como “levar com o apagador de senso comum”. Diz a mitologia Académica que D. Dinis quando fundou a Universidade virou-se para a Santa Sebenta e perguntou: “Quid petis?” ao que ela respondeu: “Gradum Asneirorum”

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