Opinião: Proteger a alegria de viver
Gisèle Pelicot foi condecorada, esta semana, pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que elogiou a sua determinação e manifestou o seu “profundo respeito” por ela. Esta condecoração tem um enorme simbolismo. Estamos habituados a ver condecorar os vencedores, os autores de grandes feitos, grandes obras, grandes descobertas. Não é todos os dias que vemos condecorar uma vítima.
Gisèle tinha 70 anos quando descobriu que a sua vida tinha sido uma mentira e um pesadelo. Durante anos, o seu marido – pai dos seus filhos e companheiro da vida inteira – recrutou online dezenas de estranhos para violarem a mulher, que ele drogava previamente, até ela ficar inconsciente. Gisèle ficava tão sedada que acordava sem consciência do abuso. Um especialista disse em tribunal que o estado dela, aquando das violações, estava mais próximo do coma do que do sono. Os abusos duraram 9 anos e Dominique foi acusado de 265 abusos sexuais e 11 mil crimes de pornografia de menores. Há mais vítimas para além da mulher: Dominique escondia câmaras para fotografar e filmar, secretamente, as noras e a filha e partilhou fotografias delas, nuas ou seminuas, online, sem consentimento. Com ele, foram julgados outros cinquenta homens. Mais de 30 arguidos foram considerados culpados de violação agravada e condenados a penas entre os 3 e os 15 anos; Dominique foi condenado a 20 anos de cadeia, a pena máxima para este tipo de crime. Foi um veredicto histórico, embora não haja justiça suficiente para um horror tamanho.
Quando o julgamento começou, Gisèle pediu que fosse público para que todos soubessem do horror a que foi submetida. Ouviu todos os testemunhos de cabeça erguida, enfrentou a verdade sem vergar. Quando lhe perguntaram porque é que o fazia, respondeu: “quero que todas as mulheres violentadas digam: a senhora Pelicot fez isto, eu também posso. Não quero que continuem a ter vergonha. Não nos cabe a nós ter vergonha, mas a eles”.
Apesar do horror inominável, Gisèle não se escondeu. Não se trancou em casa com vergonha, não tapou o rosto de cada vez que os jornalistas lhe apontaram câmaras. À ignomínia respondeu com coragem, com dignidade e com uma força que nos faz estremecer. Escreveu um livro de memórias, que chega agora às livrarias, um ano depois do julgamento, no qual relata o trauma e o sofrimento que viveu desde que descobriu que o marido, Dominique Pélicot, passou quase uma década a drogá-la para a violar e permitir que dezenas de desconhecidos fizessem o mesmo. Chamou-lhe “A alegria de viver”.
Não sei se Gisèle tem noção do que representa para os milhares de vítimas de violência doméstica e de género que há no mundo. Não sei se ela percebe como a sua coragem e a sua força fazem do mundo um lugar melhor e servem de amparo a tantas mulheres, vítimas como ela. Diria que não – os grandes nunca têm verdadeira consciência da sua dimensão. Mas haver um homem – chefe de Estado de um país que não o dela – que o consiga ver e reconhecer é profundamente simbólico. Com este gesto, Pedro Sánchez está a dizer a todas as mulheres do seu país – e do mundo inteiro: “ela tem razão, não vos cabe a vós ter vergonha, mas a eles”. Não é todos os dias que vemos condecorar uma vítima, mas agraciar Gisèle Pelicot é um gesto político, no que a expressão tem de melhor, mais bonito e mais poderoso. Condecorá-la é proteger a alegria de viver de todas as vítimas.
