Opinião: Patriotismo, mérito e discriminação positiva: receita para o “brain drain”!
É uma das mais sérias problemáticas do País. Muito se tem dito e escrito sobre o assunto, mas a solução, essa parece difícil de encontrar. E porquê? Porque é assunto onde a solução é tudo menos simples, é tudo menos imediata, é tudo menos uma única solução. Falo sobre a fuga de talento do nosso País. Quando a análise se restringe aos mais elevados níveis de qualificações, este problema ganha uma dimensão ainda maior.
Somos reconhecidamente dos melhores a qualificar. As universidades Portuguesas prestam, face aos recursos disponíveis, inequivocamente um excelente serviço a formar os futuros profissionais e esta é uma capacidade que é fulcral não perder para não adensar o problema. Todavia, quando esses jovens terminam a sua formação e estão aptos para contribuir com a sua capacidade para criar riqueza no País, o seu destino está cada vez mais frequentemente além das fronteiras de Portugal.
Algo está muito errado quando vemos que em 2024, cerca de 70% dos estudantes de uma das principais universidades do País pondera emigrar. Se longe vão os tempos da Troika, onde essa pareceu ser a solução, hoje com superavit das contas públicas porque é que tal tendência não abranda?
É justo que se reconheça que factores como a globalização e a tecnologia disponível, tornam uma aventura em qualquer outro País do Mundo algo bem mais simples que há algumas décadas atrás. Por outro lado, as condições económicas, o baixo nível tecnológico, a precariedade do emprego, o excesso de burocracia e a preocupante falta de culto pelo empreendedorismo e de iniciativa própria são características vincadas, quase culturais, do nosso mercado de trabalho e que muito contribuem certamente para que na cabeça dos nossos jovens se vejam mais limitações que oportunidades em Portugal.
Ao materializar-se esta fuga, perdem normalmente todos e em toda a linha. Perde o País pela perca do mais valioso capital humano, pelo envelhecimento da população, pela perca de talento, pelo agravar da desigualdade entre territórios. Perdem os jovens por ter que abandonar o seu País e as suas famílias. Porque nunca é demasiado tarde quando não se deixa de lutar e porque sou um apaixonado pela vida no nosso País, sou crente que há solução. Não uma milagrosa solução. Sim uma longa, necessariamente difícil e obrigatoriamente concertada solução. Sou daqueles que tinha tudo para no passado ter pensado diferente. Filho de Pais emigrantes, nascido em França e a ter que entrar no mercado de trabalho, enquanto licenciado, numa fase difícil, emigrar poderia ser “lógico”. O patriotismo do meu ser achou que não e fez uma parte. Ter a sorte de encontrar pessoas que reconheceram em mim mérito e que me lançaram desafios, alargando horizontes e oportunidades, fez o restante. Sou exemplo para alguém? Pouco importa e não é nada relevante.
Quando se gosta do nosso País (e tenho a certeza que a grande maioria que abandona o País gosta) e quando se ama a família (todos amamos certamente), só precisamos de elevar/que nos elevem o nosso patriotismo, lidar com quer nos reconheça o mérito e colocar na nossa governação quem veja nos jovens o futuro do País. Assim, comecemos por coisas pequenas: nas escolas, da primária ao ensino superior, usem-se os tantos e tão bons exemplos nacionais que a nossa história nos permite (não precisa de ser Harvard ou Cambridge, Elon Musk ou Jeff Bezos); nas empresas, as suas administrações, sejam verdadeiros indutores da cultura do mérito (há que projectar quem merece, há que reconhecer e compensar quem faz a diferença, há que “aguçar o apetite” a quem mostra ser capaz, como já ouvi alguém dizer “os jovens não fogem das empresas, fogem dos maus líderes”); a quem governa, sejam assumidamente parte interessada numa tarefa da qual nunca se podem imiscuir e arrisquem promover desigualdade a favor dos únicos que têm a possibilidade de criar um Portugal com um futuro melhor. É imperial apostar numa formação de excelência, incentivar o empreendedorismo, favorecer fiscalmente quem inicia as suas carreiras profissionais. Se no final se achar que tal é lesivo para os mais velhos, se daí advier o discurso que há que salvaguardar as reformas dos que muito trabalharam, explique-se o que é evidente: se matarmos a galinha, no futuro não há ovos para ninguém, sejam novos ou velhos. Aqui, a galinhas dos ovos de ouro são os nossos jovens.
*Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.
