Opinião: O Sol poderia gerar um apagão?
Desta vez tenho a certeza de que falo de algo que todos viram e sentiram: o apagão de 28 de abril. Todos vimos como estamos absolutamente dependentes da energia elétrica. Os menos jovens, lembram-se como era jantar à luz de um candeeiro a petróleo a cada vez que caía uma forte trovoada que mandava abaixo a luz.
Não havia telemóveis, nem internet, nem computadores — bom, já havia mas era tecnologia de ponta nos seus primeiros passos. Hoje, até muitos esquentadores a gás que precisam de eletricidade para funcionar.
Ainda não são conhecidas as causas do apagão, mas uma coisa já conhecemos: as consequências foram graves. Várias estruturas críticas, como os hospitais, têm geradores que disparam automaticamente quando há uma falha de corrente conseguindo manter-se a funcionar, mas muito poucas estão preparadas para cortes de longa duração.
Chegou a levantar-se a possibilidade de o apagão ter sido gerado por uma tempestade solar. Por acaso, nada indica que tenha sido mas, sim, poderia. A 13 de março de 1989, uma tempestade solar fez com que um transformador derretesse num minuto e meio, deixando 5 milhões de pessoas do Quebec, no Canadá, às escuras durante horas. O prejuízo rondou os 2 mil milhões de dólares. Por cá, com o nosso apagão, temos a lamentar uma morte e um prejuízo superior a mil milhões de euros.
Mas afinal como pode o sol apagar a luz? Vamos lá lembrar-nos da físico-química do secundário: correntes elétricas geram campos magnéticos (Lei de Ampère) e campos magnéticos variáveis geram correntes elétricas (Lei de Faraday). O Sol é gigantesca bola de “gás”, superquente, onde os átomos estão ionizados existindo imensos eletrões livres, ou seja eletrões não ligados a nenhum átomo — coisa a que chamamos plasma. Na prática, este plasma borbulha como sopa a ferver. O movimento da água da panela, que arrasta consigo os legumes e o seu puré, chama-se convecção. A água do fundo, perto da chama, fica mais quente e por isso sobe, e a água à superfície, que já arrefeceu um bocadinho, desce. Ora, no centro do Sol ocorrem reações nucleares que o põem a 15 milhões de graus. Consequentemente, todo o resto do sol vai “borbulhar” em convecção até à superfície onde estão apenas 5500 graus. O movimento do plasma gera correntes elétricas que por sua vez geram campos magnéticos que se estendem pelo sistema solar atingindo a Terra. Como a Terra também tem um campo magnético, as pequenas variações do campo magnético solar não nos afetam. Mas quando temos uma verdadeira tempestade magnética solar os seus efeitos fazem-se sentir até ao nível do solo.
Hoje, dependemos como nunca do bom funcionamento de equipamento elétrico e eletrónico quer na Terra quer no Espaço. Já quase nada funciona sem ter de alguma forma direta ou indireta ter comunicado com um computador e um satélite. E todos pudemos ver que até para comprar velas é preciso ter eletricidade para a caixa registadora, pois as de manivela já estão no museu.
É precisamente por se saber o quão dependentes estamos da eletricidade e telecomunicações que no Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) também investigamos na área da meteorologia espacial, procurando compreender e prever os fenómenos solares extremos para que possamos mitigar os seus efeitos. Desta vez o apagão não foi originado por uma tempestade solar, mas mais cedo ou mais tarde haverá uma que o fará e era bom que já estivéssemos à espera.

Obrigada Nuno, pelo esclarecimento. 😀Cumprimentos de todos nós cá de casa. Torres Vedras, Santa Cruz.