Opinião: “O futuro do trabalho (também) é humano?”
Silenciosamente, a digitalização está a transformar o mercado de trabalho. A automação e a inteligência artificial (IA), em particular, trouxeram uma nova realidade que expõe um número cada vez maior de profissões a mudanças tecnológicas que exigem a sua reconfiguração e uma estratégia de adaptação ajustada.
No recente estudo “Automação e inteligência artificial no mercado de trabalho português: desafios e oportunidades” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, é analisado o impacto destas tecnologias em 120 profissões, sendo estas classificadas em quatro “terrenos de digitalização” consoante o risco de se tornarem obsoletas ou de se virem a valorizar – Profissões em ascensão, Profissões em colapso, Terreno das máquinas e Terreno dos Humanos. Estes “terrenos” traduzem distintos graus de exposição a estas mudanças tecnológicas.
As “profissões em ascensão” – que representam apenas 22,5% do emprego – são as de baixo risco de automação e elevado potencial de crescimento com a IA. São, portanto, promissoras para o futuro e estão associadas a competências cognitivas. E garantem rendimentos médios mais elevados. O “terreno das máquinas” está exposto a fortes riscos de automação, mas existem aqui ainda poucas profissões de acordo com este Estudo. Já o “terreno dos humanos”, o mais representativo ( 35,7%), inclui empregos pouco expostos à tecnologia. A mensagem positiva, para já, é que uma elevada proporção destas profissões está, previsivelmente, protegida de uma potencial destruição com origem na automação. Já as “profissões em colapso” – quase 29% da força de trabalho – enfrentam grande risco de desaparecimento.
Lisboa destaca-se como o distrito mais preparado para esta nova realidade, com maior proporção de empregos em profissões em ascensão. Por contraste, regiões industriais como Braga, Aveiro ou Viseu, com maior peso da manufatura, estão mais vulneráveis a uma “automação destrutiva”.
A desigualdade entre estas categorias é evidente. Os trabalhadores em profissões vulneráveis no “Terreno das máquinas” tendem a ter baixos níveis de escolaridade e rendimentos, enquanto os das profissões em ascensão possuem, na sua maioria, formação superior.
A mensagem que fica é muito clara: a digitalização não é nem será neutra nesta equação. Sabemos que cria valor, mas pode também criar exclusão. Visto em sentido positivo e apesar destes desafios, grande parte da força de trabalho portuguesa pode ser requalificada e valorizada, especialmente através do desenvolvimento de competências humanas como a criatividade, a colaboração e a comunicação. Porque se soubermos investir nas pessoas, o futuro digital será sempre uma oportunidade. Não uma ameaça.
