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Opinião: O desfazer de feiras

03 de janeiro de 2026 às 12 h43
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Assistimos, neste início de século, ao desfazer de algumas ideias feitas, de algumas verdades definitivas, de alguns dogmas, de algumas feiras.
A irreversibilidade da globalização, a universalização da democracia liberal e o consenso sobre os direitos humanos são algumas das leis de ferro do devir histórico que entraram em aparatoso colapso.
O Brexit, primeiro, as guerras tarifárias e alfandegárias, depois, e a ressurreição dos nacionalismos, dos localismos, das fronteiras e dos muros, por fim, são demonstração suficiente da insubmissão da História dos homens a ditames racionais e a determinismos científicos.
A vitória política da democracia, como o obituário precoce de Mark Twain, foi, de igual modo, uma notícia levemente exagerada.
Desde logo, existe uma mitologia fantasiosa, se não fantástica, da sua real concretização. Em Atenas não existiu democracia. Como falar de democracia quando 70% da população — escravos e metecos — estava, em absoluto, privada de direitos políticos, destino, aliás, partilhado pelas mulheres e pelos descendentes dos masculinos cidadãos?
A democracia grega, ao lado da República romana, mais não foi que um colegial e patriarcal autogoverno das elites aristocráticas.
No tempo atual, com o colapso do Estado Social e com o esvaziamento prático dos mecanismos da representação, fagocitados pela autorreferencialidade dos aparelhos partidários, a democracia reduz- se a pura abstração nominal, não raro ocultadora de autênticas autocracias, tiranias e plutocracias.
Stiglitz, observando a triste realidade de todos os senadores e congressistas norte americanos serem milionários, vem redefinindo o mote clássico de “governo do povo, pelo povo, para o povo” para “governo dos hiper-ricos, pelos hiper-ricos, para os hiper-ricos”. Sublinhando não ser muito diferente em Inglaterra o estado das coisas. Se, nos anos 70 do século passado, 40% dos parlamentares do Partido Trabalhista vinham da classe operária, hoje, na esmagadora maioria, são milionários, académicos e profissionais livres.
O que nos leva a um ponto em que, sem exagero de monta, podemos afirmar ser mais efetiva a representação popular nas Cortes medievais que nas Assembleias representativas das democracias liberais contemporâneas.
Também a proclamação metafísica da existência de direitos naturais do Homem entrou em eclipse.
A severa crítica do marxismo, acompanhada de perto por Hannah Arendt e Simone Weil, de o catálogo dos direitos, quando desacompanhado de concreta ação transformadora da condição humana de cada pessoa, constituir uma pura e vazia formulação retórica, deu um primeiro e profundo golpe no arrazoado panfletário.
As doutrinas, ora dominantes, do relativismo cultural aportaram-lhe o golpe final.
Pois, em nome dos particularismos e nativismos culturais, tudo fica justificado, do sistema de castas à excisão genital feminina e à burca.
É tempo, enquanto ainda há tempo, de reinventar uma democracia universal ordenada ao humano singular.
Pois a barbárie é a omnipresente e única alternativa.

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