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Opinião: Educação e futuro Do colapso à reinvenção: a escola que aprende com IA

22 de maio de 2025 às 09 h14
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Com a falta de professores, a degradação da profissão docente e os desafios do século XXI, a escola europeia enfrenta uma encruzilhada. Neste texto, propõe-se uma reflexão crítica sobre o atraso português e europeu face a países que investiram decididamente em inovação, ciência e inteligência artificial, e uma convocação à coragem política para reformar de fundo o sistema educativo.

Segundo dados do Conselho Nacional de Educação, mais de 100 mil alunos iniciaram 2024 sem todos os professores atribuídos. Com a instabilidade política dos últimos anos e as sucessivas greves a eficácia do sistema educativo (SE) ficou comprometida. Os indicadores de inovação e renovação são tímidos e insuficientes. Muitos profissionais e até pensadores da Educação permanecem presos a modelos de escola e ensino do passado. O desinvestimento, reflexo da desvalorização, não permite antever melhorias significativas que nos afastem da cauda da Europa.

Em 2013, Xi Jinping, recém-eleito presidente da China, reconhecendo o atraso face aos países mais desenvolvidos, declarou: “A tecnologia avançada é a arma afiada do estado moderno… temos de adotar uma estratégia assimétrica de recuperação e ultrapassagem” (Suleyman, M., A Próxima Vaga, p. 148 ). Investir na educação, na ciência, na investigação, nas tecnologias, na robótica e na IA tornou-se o caminho, hoje, obrigatório. Custa muitos milhões, mas gera biliões. A principal razão do sucesso da IA é o que rende: biliões sem conto.

A Europa foi berço da cultura, da ciência moderna, da universidade, da escola pública. Exportou ideias e impôs modelos. Colonizou, explorou, retirou riquezas, mas não desenvolveu nem investiu. Hoje, vê-se ultrapassada por países que apostaram onde ela hesitou. A China, há poucas décadas considerada periférica, lidera hoje em produção científica, número de doutoramentos, formação de engenheiros e aplicações de inteligência artificial. A Coreia do Sul investe quase 5% do PIB em investigação e desenvolvimento. Israel ultrapassa os 5,4%. A média da União Europeia mal chega aos 2,2%. Faltam professores nas escolas europeias. A profissão envelheceu, perdeu valor e atratividade. Os concursos arrastam-se, as reformas sucedem-se, a aprendizagem empurra-se, adia-se, degrada-se.

Não se trata apenas de uma resposta administrativa. Trata-se de um novo paradigma que rompe com a escola tradicional, tantas vezes ignorado por docentes e pensadores da educação. Uma boa parte do CNE treme quando se fala de aprender fazendo, investigar, experimentar, criar, resolver problemas em equipa, com acesso a ferramentas modernas e mediação inteligente. O programa uniforme, a lição e o exame continuam a ser a imagem de marca dominante no sistema, nas escolas, no ME, nas estruturas reguladoras, sempre que se tenta dar outro rumo às escolas e aprendizagens. Plataformas digitais podem acompanhar os ritmos de cada aluno. A IA pode apoiar diagnósticos, propor percursos, adaptar conteúdos. Robôs educativos, já em uso no Japão, Singapura e Estónia, não substituem professores: apoiam-nos, reforçam o trabalho autónomo, mantêm o interesse dos alunos. E não faltam ao serviço.

É possível tudo isto em democracia? Não só é possível, é essencial. Só sociedades livres, informadas e críticas saberão usar a IA com responsabilidade, garantindo que esta serve as pessoas e não as controla. O novo governo não pode limitar-se a gerir a escassez. Precisa de visão, coragem, estratégia. A inteligência artificial pode ser o melhor aliado da escola, mas exige uma reforma profunda do modelo. Tornar a escola viva, desafiante, capaz de aprender também.
A Europa já liderou o mundo com o conhecimento. Pode voltar a fazê-lo? Estamos a partir com grande atraso, mas há apenas um caminho: investir a sério em quem aprende e em quem ensina. É urgente acompanhar as experiências em curso noutros países, com IA na escola, com robôs que já ensinam línguas, matemática e programação em estabelecimentos do Japão, Singapura e Estónia.

O mundo eurocêntrico de outrora desloca-se para oriente. O eldorado americano, com as recentes medidas de Trump, está a contribuir poderosamente para essa deslocação. Temos de virar a agulha, começar de novo, no trilho certo. Sem medo. Este é o investimento que dá sempre lucro. Mas atenção: quem não semeia, não colhe.

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