Opinião: Descoberta de novos gelos para além de Neptuno
Desde 1992 que sabemos que Plutão não se encontra sozinho na sua região do sistema solar. Foi, aliás, devido à descoberta de muitos outros corpos celestes na região depois do planeta Neptuno que a acabámos por denominar de Cintura de Kuiper. Plutão, que lá se encontrava, foi reclassificado para a nova categoria de planeta-anão.
Frequentemente, chamamos a toda essa região também de transneptuniana, chamando de objetos transneptunianos aos corpos celestes que lá se encontram.
A temperatura no Espaço aqui junto à Terra é de cerca de 120 °C. Já perto do planeta Júpiter, cinco vezes mais longe do Sol do que nós, teremos um máximo de -100 ºC e na zona de Neptuno, 30 vezes mais longe, já só temos -200 ºC. Ou seja, na região transneptuniana quase tudo se congela. Congelam-se as moléculas de água, evidentemente, mas congelam-se também as de nitrogénio (azoto), as de metano (um gás bem combustível aqui na Terra), as de metanol (um álcool tóxico), e até mesmo as de dióxido de carbono. Assim, nessa região tão fria é de esperar encontrarmos gelos de todos estes compostos químicos.
Gelo de água já há muitos anos que foi detetado. A supresa foi a deteção de gelo de dióxido de carbono em todas as superfícies dos objetos transneptunianos, num estudo liderado pelo colega Mário de Prá, e no qual participei, utilizando observações do Telescópio Espacial James Webb (JWST), agora publicado na revista Nature Astronomy. E mais surpreendente foi descobrirmos monóxido de carbono, que sublima a -195 ºC e, portanto, já não deveria existir. Mas existe. E encontra-se apenas naqueles que têm muito dióxido de carbono, indicando que há grupos diferentes de objetos na Cintura de Kuiper.
Os planetas gigantes do nosso sistema solar, Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno, não se formaram na posição onde estão hoje. Formaram-se a outras distâncias e migraram. E enquanto migraram foram espalhando e empurrando todos os pequenos objetos que encontravam pelo caminho. Findo esse processo, acabámos com uma enorme região de pequenos corpos acumulados para além de Neptuno, a tal Cintura de Kuiper, que deverá ser uma mistura de corpos formados em regiões diferentes do sistema solar. Porém, não é fácil demonstrá-lo. A deteção de gelo de monóxido de carbono é mais um passo. Esse gelo muito provavelmente só existe naquela região porque é o resultado de uma reação química que por lá ocorre e não porque está lá desde o início. E como só os muito ricos em dióxido de carbono conseguem ter o monóxido, só esses objetos são capazes de ter a tal reação química. Logo, esses objetos são intrinsicamente diferentes dos outros, o que se explicaria facilmente se se tivessem formado noutro lugar, mais perto do Sol, tendo sido depois empurrados para a Cintura de Kuiper quando os planetas migraram.
Para usar uma analogia vitivinícola, mesmo aparentemente igual às outras, a uva cultivada nas zonas mais quentes é mais rica em açúcar. Sendo mais rica em açúcar, na fermentação gera mais álcool.
O álcool não existe na uva, é gerado na fermentação do seu açúcar. Uma uva que quase não tivesse açúcar não daria vinho. É de certa forma semelhante o que achamos que se passa com os transneptunianos: os muito ricos em dióxido de carbono conseguem gerar monóxido mas os outros já não. E assim, tal como vinhos do Alentejo são mais fortes do que os do Minho e mesmo sem rótulo na garrafa um enólogo percebe de onde vieram, nós, pelas propriedades de hoje dos objectos do sistema solar tentamos perceber de onde vieram.

