Opinião: À Mesa com Portugal – Não saber comer, os mais jovens e os mais velhos
É dito e propagado que os mais novos não sabem comer. Que só gostam da comida das grandes cadeias de restauração onde tudo é saboroso e muito atrativo. Que só comem aquilo que lhes faz mal. Talvez não possamos dizer isto como uma verdade absoluta. Os jovens não são todos iguais, e se temos muitos que se ficam pela comida hipercalórica e ultraprocessada, outros há que gostam de procurar boas opções. Alguns deles até chegam a descobrir o gosto pela cozinha, a aventura dos tachos e panelas. Tudo isto sem, necessariamente, enveredarem pela profissão de cozinheiro. Somente, querem aprender para poderem ser autónomos e fazerem brilharetes em almoços de família ou de amigos.
E se acusamos os jovens de se ficarem pela comida ultraprocessada, temos de olhar para o que os mais velhos andam a comer. É que, há uma geração que nasceu numa época em que a fome era ainda condimento, comia-se o que a terra dava e o que o orçamento familiar deixava comprar, e o receituário repetia-se sem grande alarido. Ora, confrontados com a explosão de um sistema agroalimentar que lhes dá, a baixos preços, a diversidade 365 dias por ano, nem sempre estão preocupados com o comer bem. Compram vegetais congelados, mesmo fora de época. Compram peixe como robalo, dourada e pregado, de produção intensiva porque está barato. Compram refeições congeladas porque dão muito menos trabalho e são muito saborosas. Sentem o poder da compra, por vezes, até iludidos com o apelo do discurso publicitário que remete à “tradição”, sem pensarem o quanto a qualidade fica comprometida.
Às delícias da comida quimicamente condimentada para dar a sensação de umami, e ao conforto da comida pré-preparada, é difícil resistir. E não falo só de hambúrgueres, pizzas, cachorros e afins. Falo de receitas da cozinha portuguesa que, disponíveis em embalagens, são facilmente postas no forno e transformadas em refeições. Também não me parece que a crítica seja útil. Afinal, depois de um passado “remediado” ou de escassez, é normal que as opções sejam pelo guloso, sem pensar muito no assunto.
Talvez a linguagem de literacia alimentar não deva ser apenas direcionada aos jovens, talvez seja útil lembrar aos mais velhos como comer bem. Independente do receituário, é preciso escolher e para isso, é preciso conhecer e ser esclarecido. E, por fim, não ceder à tentação das verdades fáceis, nem sobre os mais jovens, nem sobre os mais velhos. Todos precisamos aprender e estar atentos.
