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Opinião: À Mesa com Portugal – Com a boca na política

23 de maio de 2025 às 12 h03
1 comentário(s)

O perfume do sucesso é inebriante, talvez por isso, eu dele desconfie. Não é que não goste de sucesso, mas acho prudente manter os pés bem assentes na terra para não perder o chão. Fala-se de que fado é este que leva os portugueses a tomarem determinadas opções políticas como se não tivessem discernimento. É triste ver uma classe a acusar a outra de menoridade mental, afinal somos todos portugueses. O meu veio de análise social ensinou-me uma coisa, as diferenças de classe são o motor da história e, do mesmo modo que quem está na classe média anseia a estar no topo, quem está na classe popular quer ascender à classe média. Somos feitos de expetativas e o pior que algum gestor ou dirigente pode fazer é subestimar a capacidade de expetativas dos outros. Ninguém quer morrer pobre, ninguém quer ficar pela base social. Mesmo aqueles que nasceram em berço humilde anseiam levar os seus a uma condição social de exercício de privilégios.
Ora, quando dizem que nunca Portugal evoluiu tanto, económica e socialmente, como nos últimos anos, esquece-se de dizer uma coisa. É que, de facto, evoluiu, contudo, ficou aquém das expetativas de quem estava em fase de ascensão. O sistema, e neste incluem-se desde a classe política à roda financeira, prometeu para além do que devia, criou a ideia de que era possível ter para além do sonho. É claro que houve uma mudança como da noite para o dia, entre o período antes e pós 1974, dos direitos políticos e sociais à melhoria das condições de saúde, vai um passo enorme. Mas, o problema é que foi prometido mais. Prometeram o céu. E o céu não apareceu. Por isso, o desaire, o descontentamento, a frustração, a raiva, o grito contra um inimigo comum que tem tanto de imaginário quanto as expetativas que foram criadas.
Convinha que quem está devidamente instalado na estrutura social não se esquecesse de quem vive a frustração de não o ter conseguido. O pior cego é mesmo aquele que não quer ver e, neste caso, não estamos a falar apenas de querelas de imprensa cor-de-rosa, mas do futuro do mundo. Não é novo, nem nunca será que, quem sente a frustração protesta, ainda que silenciosamente, e penaliza o alvo que lhe está mais à mão. Gostamos de ser polidos, mas é fácil sê-lo quando vestimos um blazer azul de botões dourados e nos sentimos no topo do mundo.
Não tenho soluções instantâneas, mas gostava que percebêssemos a raiz do problema em vez de nos atacarmos como cães enfurecidos.

Autoria de:

Olga Cavaleiro

1 Comentário

  1. Sageza diz:

    Voilà! Ora nem mais, Sra. Olga Cavaleiro. Como uns cães enfurecidos, incluindo a mamãe Metralha, atrás das delícias ósseas do poder.
    Discernimento, Sra. Olga Cavaleiro. Discernimento.
    Sempre interessante e perspicaz, a Sra. Olga Cavaleiro.

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