diario as beiras
Geralopiniao

Opinião: “A lição da guerra na Ucrânia”

05 de maio de 2022 às 11 h36
0 comentário(s)

Hoje, começo por reiterar o meu apoio às palavras que, intencionalmente, Miguel Sousa Tavares foi repetindo várias vezes ao longo do seu texto, publicado no jornal Expresso: “A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão”.
Reitero porque a guerra foi iniciada pela Rússia e Putin e toda a tragédia dos seres inocentes que fogem, que se enclausuram em caves transformadas em bunkers ou que morrem, quantas vezes selvaticamente agredidos antes de serem abatidos, dos acordos sobre corredores humanitários que se estabelecem e se desrespeitam, dos encontros de que nada resulta na maior parte das vezes, toda esta tragédia é justificada por argumentos esfarrapados de quem parece defender a legitimidade da invasão russa. A verdade, porém, é que o mundo acordou, o povo ucraniano recordou-nos o sentido de Pátria, e temos de elogiar a coragem de um Homem, Zelensky, quando este surge no meio deste circo trágico, em fato militar mas calmo, mostrando ao mundo uma realidade que não julgáramos possível no século XXI, sem se cansar de pedir apoio ao Ocidente para os milhares de trapezistas civis, dependurados nas cordas frágeis desta guerra, sem ajuda e perdidos sem saberem para onde fugir.
A confiança em “direitos humanos universais” começa a esvair-se nas nossas sociedades e não é por acaso que os que hoje defendem a posição da Rússia nesta guerra são adeptos de pseudodemocracias, saudosistas de antigos regimes que não foram, nem são, mais do que totalitarismos, em que se querem rever e, por isso, são admiradores de Putin. Felizmente, a Europa e o Ocidente vão segurando a sua bandeira da democracia, não com a solidez que já julgávamos instituída, mas, apesar dos muitos erros e defeitos instalados, agora acordados para a certeza de que a liberdade de um território, de um país ou de vários países, é o único princípio que pode levar ao desenvolvimento do planeta e ao bem do Homem.
Em 2020, Anne Applebaom escreveu um livro “O Crepúsculo da Democracia” cuja mensagem que transmite é a tradução do fracasso da política (eu diria, dos “nossos políticos”), fracasso que em muito beneficia aqueles que defendem o autoritarismo e a repressão. Se estamos ou não num crepúsculo, ou se alguma coisa vai nascer de novo e diferente pela madrugada, o futuro no-lo dirá!
Entretanto, Portugal, na Assembleia da República, “vestiu-se à Ucrânia” e Volodymyr Zelensky, embora à distância, marcou presença numa sessão solene do Parlamento. O seu discurso recordou barbaridades cometidas pelas tropas russas nas cidades ucranianas, pedindo mais apoio militar e económico. e tentou sensibilizar os portugueses quando recordou o 25 de Abril, numa imagem de paralelismo e proximidade com a liberdade que a Ucrânia pretende. No mesmo sentido, agradeceu a Portugal todo o apoio que tem recebido, focando-se também em convencer o Governo a apoiar a adesão da Ucrânia à União Europeia. Após esses quinze minutos de discurso, o nosso presidente da Assembleia da República respondeu, em meu entender, de uma forma que ultrapassou a preocupação com uma sempre ambígua linguagem diplomática, mas optando pela via da força das palavras, palavras sem duplas interpretações, tocado na sua sensibilidade pelos verdadeiros crimes de guerra a que temos assistido, em que se incluem não apenas a destruição maciça de cidades, mas sobretudo a morte de civis indefesos, nomeadamente crianças.
Só não consigo entender a posição de ausência do PCP no Parlamento Português! Como é que um partido que diz lutar pela liberdade em Portugal pode ter assumido tão vergonhosa atitude? Será tal a cegueira que ainda vêem em Putin o agente da KGB que vai restaurar a antiga União Soviética? Ou será que é mesmo a autocracia, o poder absoluto, a cerviz dobrada e obediente, que defendem? Ninguém, lá dentro, se deu conta da tristeza de pensamento e de linguagem de argumentos com que a sua líder parlamentar se apressou a exprimir logo que terminou a sessão na Assembleia? O que interessa é a paz, dizem. Mas se a Ucrânia estava em paz e Putin comanda a sua invasão e destruição, a quem cabe fazer a paz? Que paz?
Por vezes, tenho a sensação de que o mundo anda distraído, disperso, confuso, desligado da realidade mais imediata e mais próxima de nós. O passado já não existe, no futuro não interessa pensar e o presente não se agarra porque não se imobiliza. Mas parece que a todos só interessa viver o presente, interpretando mal um físico célebre, cujo nome agora não me ocorre, quando ele dizia que “o presente é a única coisa que não tem fim”.
E a grande lição desta guerra deveria ser o ter-nos ela ensinado a procurar dentro de nós e não fora. Nada poderá ser corrigido no mundo se não olharmos primeiros para dentro de nós.

Autoria de:

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

Geral

opiniao