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Opinião: A Inteligência Artificial e a crise dos professores

10 de outubro de 2024 às 10 h49
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Um dia a minha neta, então com dez anos, perguntou-me: Avô, acreditas que Deus existe? Sorri e respondi: se tem nome, existe, resta saber se traduz a mesma realidade para todos. Para uns é um ser superior, capaz de criar e mudar o mundo; para outros será apenas um conceito, uma ideia, um espírito inspirador para o comportamento dos humanos que, desde o início da sua afirmação como tal, sempre tiveram consciência das suas limitações, das suas fraquezas, sentindo a necessidade de recorrer a uma força superior, física ou espiritual, real ou imaginária, que alimentasse a esperança de uma vida digna e eterna. Milhares de deuses criados ao longo da história mostram a procura permanente de um ente superior securizador e protetor. Mas Deus não existe para todos, nem traduz a mesma realidade para aqueles que acreditam.

A “Inteligência Artificial” (IA) parece enfrentar uma crise existencial da mesma ordem. Nasceu há pouco mais de 50 anos, mas só na última década deu provas da sua capacidade para mudar o mundo e para dar um novo rumo à história. No momento atual, ainda são mais os incrédulos do que os crentes. É ainda muito limitado o universo de quem conhece bem e sabe medir o alcance desta nova ferramenta. A verdade é que a IA não espera e avança, com a indignação daqueles que sentem a terra a fugir-lhes debaixo dos pés. Inseguros na sua falta de informação, sentem que o seu mundo está a chegar ao fim, que os seus princípios e valores foram subvertidos e que a própria vida do planeta está em causa porque as máquinas, instrumentos da IA, destronaram o ser humano e estão a substituir a sua inteligência e a sua autoridade.

De facto, os robôs executam hoje operações de alto risco e melindre, como transplantes cardíacos e outras operações cirúrgicas, porventura com maior precisão e segurança que o cirurgião humano. O robô não hesita, não treme, não se cansa, não se enerva. Mas atenção, o robô é uma máquina, uma tecnologia que executa o que a inteligência humana programou. As técnicas da IA são concebidas e definidas pelo ser humano e as tecnologias da IA são programadas pelo ser humano. Quando falamos de Inteligência Artificial, antes de concluir que o homem foi substituído pela máquina, temos de ter consciência que tudo o que é Inteligência é produto do ser humano. A máquina não pensa nem decide, executa o que foi programada para executar. A inteligência está em investigar, descobrir, decidir, programar e definir o modo de execução. Quando a Inteligência Humana tem o poder de conceber e programar máquinas capazes de realizar tarefas antes só realizadas pelo homem, demos um passo em frente e não atrás. A Inteligência Artificial não é mais do que a Inteligência do Ser Humano executada por uma máquina. A máquina não pensa, não inventa, não cria, mas executa o que lhe mandam executar. A inteligência é por agora uma força dos seres vivos, com especial relevo do ser humano. É óbvio que esta capacidade para pôr as máquinas a funcionar com a sua inteligência tem consequências, hoje à vista de todos: as máquinas podem desempenhar uma boa parte das tarefas até aqui desempenhadas palos humanos. Mas não são as máquinas que pensam e decidem.

A IA ganhou nos últimos 5 anos, com o aumento da capacidade de computação, o ímpeto de uma onda avassaladora difícil de controlar. Muitos preferem fugir, bloquear a onda, evitar que fecunde a terra com o seu humus multiplicador. E tentam desviar a escola de uma função que é a sua, educar, ensinar, prevenir riscos. Retirar a IA e tecnologias associadas da escola é fechar a porta que melhor conduz a uma aprendizagem orientada, a uma educação refletida sobre o uso e os riscos. Excluir a escola deste processo é, mais uma vez, declarar a sua incompetência para educar. O movimento é imparável e está em marcha. Fechar as portas da escola é deixá-lo em roda livre, sem a luz do saber e da experiência e sem a consciência exata dos benefícios e dos riscos.

A OCDE e as Organizações das Nações Unidas, Unesco e Unicef, que contam com o contributo dos melhores especialistas a nível mundial, editaram em 2024 relatórios atualizados sobre a IA na escola, chamando a atenção para os problemas da Igualdade e da Inclusão.

A IA e as tecnologias associadas oferecem um enorme potencial para levar a escola a todos em todo o mundo, mas a situação de crise, de instabilidade e de risco permanente em largas áreas do planeta impedem o acesso de uma parte importante da população em idade escolar.

A exclusão escolar não é apenas o resultado da ação da escola em muitos países, como o nosso, é a consequência de um mundo em risco permanente, impedindo milhões de crianças de ter acesso à educação.

A UNESCO – International Institute for Education Planning, celebrando o Dia Mundial dos Professores, 5 de outubro, lembra que o mundo tem um défice, só no ensino secundário, de 31 milhões de professores, 58% dos quais para preencher os lugares dos que abandonam. Este é um problema particularmente grave em Portugal, porque é crónico. Antes de Abril, a falta de professores era menos visível porque a escolaridade, não sendo obrigatória, requeria um número limitado de docentes; depois de Abril, com a abertura da escola a todos, nunca foi possível ter professores para as necessidades, nem em quantidade nem em qualidade. Os docentes sem habilitações foram e são um estigma que requer uma nova revolução, pelo menos na educação.

A era digital e toda a tecnologia envolvida, hoje passagem obrigatória, veio agravar uma situação que vem de longe: a escola e os professores que temos, em grande parte, não encaixam nem respondem ao mundo em que vivemos nem às novas gerações de aprendentes. Tudo mudou menos a escola. Muitos professores sentem-se desconfortáveis, inseguros, ultrapassados e perseguidos pelo abandono a que foram condenados ao longo de décadas. Não espanta que queiram fugir e não vai ser fácil segurá-los. A IA e as tecnologias do digital e do online são a onda favorável que pode ajudar. A TINA está à espreita. Leia-se: There Is No Alternative.

Autoria de:

José Afonso Baptista

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