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O erro de Einstein… e o de Pio XII

03 de março de 2026 às 10 h50
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No âmbito do ciclo “Bem-Aventuranças da Verdade”, organizado pelo Secretariado da Pastoral da Cultura da Diocese de Coimbra, decorreu no passado mês de Outubro, no Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra a palestra “O erro de Einstein”, proferida pelo seu diretor, Ricardo Gafeira. Com a devida vénia, apresenta-se um resumo nela inspirado e que, naturalmente, apenas compromete o cronista.

Einstein apresentou em 1915 a teoria da relatividade geral, um novo modelo da lei da gravidade que não só permitia compreender alguns aspetos não explicados pelo modelo de Newton como veio abrir vastos horizontes na investigação em cosmologia. Entre as caraterísticas inesperadas deste novo modelo, contava-se a possibilidade de o Universo poder expandir ou contrair, contrariando aquilo que parecia ser a evidência experimental. Esta possibilidade era considerada fisicamente inaceitável, pelo que Einstein se apressou a corrigir as equações, introduzindo um termo (governado por uma “constante cosmológica”) que removesse tal comportamento do modelo teórico.

Entretanto, os astrofísicos davam os primeiros passos na medida das distâncias e das velocidades dos objetos astronómicos mais longínquos. Descobriu-se a existência de outras galáxias e rapidamente se progrediu para a estimativa das respetivas distâncias e velocidades em relação à nossa própria galáxia. Os resultados eram surpreendentes: não só indicavam estar todas as galáxias a afastar-se, como a velocidade de afastamento era tanto maior quanto maior fosse a distância.

Foi em 1927 que o astrofísico belga Georges Lemaître apresentou um modelo em que explicava estes resultados admitindo que o Universo não era estático, mas originado num evento primordial. Einstein ter-lhe-á dito então: “os seus cálculos estão corretos, mas a sua física é abominável”. O astrofísico Fred Hoyle, a quem desagradavam as reminiscências genesíacas do modelo de Lemaître, designou-o desdenhosamente como o “Grande Estouro” (“Big Bang”).

O acumular de informação experimental reforçaria paulatinamente a credibilidade do modelo, que tem vencido com distinção os múltiplos testes a que foi sujeito. O próprio Einstein arrumaria a sua “constante cosmológica” no caixote do lixo da história, considerando-a “o meu maior erro”.

Lemaître, que era também padre da diocese de Bruxelas, foi eleito membro da Academia Pontifícia das Ciências. Foi a esta Academia que, em 1951, Pio XII endereçou um entusiasmado discurso em que chega a afirmar: “Parece, de facto, que a ciência hodierna, recuando num ápice milhões de séculos, alcançou testemunhar esse «Fiat lux» [«Faça-se luz»] primordial em que, do nada, apareceu a matéria num mar de luz e radiação”.

Lemaître discordava firmemente desta perspetiva concordista, defendendo serem a fé e a ciência domínios separados entre os quais não há qualquer conflito (nem necessidade de buscar concordâncias). Assim, em antecipação de uma alocução papal prevista para o Congresso Mundial de Astronomia que decorreria em Roma em 1952, solicitou uma audiência com o Papa.

Não sabemos o que terão falado, mas permanece o sóbrio e contido discurso que Pio XII pronunciou, onde deixa agora claro que “devemos supor que para a ciência astronómica estamos ainda longe de poder afirmar que chegou ao fim da sua maravilhosa aventura”. Deixe-se assim a ciência e a religião seguirem os seus caminhos distintos, autónomos e complementares, ambos necessários para que a Humanidade vá encontrando alguma luz.

Autoria de:

Rui César Vilão

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