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O Dia do Alcindo

15 de junho às 16h20
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Há uns dias, celebrámos o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, uma data que tem como objetivo celebrar os portugueses, a cultura lusófona e a presença portuguesa no mundo. É a versão contemporânea – e soft – do “Dia de Camões, de Portugal e da Raça”, que durante o Estado Novo era utilizado pela propaganda do Regime para celebrar os grandes feitos históricos portugueses, a excecionalidade do nosso povo, os Descobrimentos e, acima de tudo, a importância da guerra colonial e das nossas forças armadas para defender a continuidade das ex-colónias sob domínio luso. O 10 de junho, que reúne vários símbolos, tem sofrido uma evolução ao longo das últimas décadas – mal seria! – mas para continuar a fazer sentido assinalá-lo, nos dias de hoje, falta assumirmos um símbolo que, mais do que celebrar o passado, defenda o futuro. O Dia de Portugal é, também, o Dia do Alcindo.
A história é conhecida, mas vou continuar a contá-la todos os anos: no dia 10 de junho de 1995, um cidadão português foi assassinado de forma brutal, unicamente por ser negro. Foi assim que um grupo de skinheads celebrou o “Dia da Raça”: inundando as ruas de Lisboa de violência e espancando os negros que encontrava pelo caminho. O Alcindo tinha 27 anos, trabalhava numa oficina de mecânica, era muito próximo da família, gostava de cozinhar e adorava dançar. Não tinha cadastro, era um cidadão cumpridor e um jovem cheio de amanhãs. Era português – tão português como eu. Naquela noite terrível, tinha saído para dançar – adorava dançar – e foi morto à pancada, com violência extrema, por um grupo de skinheads, jovens nacionalistas, racistas. Chamem-lhes o que quiserem para nomear aquilo que eles são: umas bestas cobardes.
Alcindo foi espancado de forma tão violenta que o seu corpo cedeu. Sofreu hemorragias, lesões traumáticas crânio-encefálicas e fraturas. Foi encontrado sem sentidos. Morreu no dia seguinte, às primeiras horas da madrugada. Na noite anterior, despediu-se da família com um “até já”. Ia só dançar. A sua última dança foi com o lado negro do mundo.
Onze dos acusados foram condenados pelo crime de homicídio (entre 16 anos e meio e 18 anos); os restantes por agressões, com penas mais leves (entre três anos e meio e quatro anos e nove meses). O tribunal determinou que os culpados tinham de pagar 18 mil contos à família da vítima. Talvez haja leitores jovens por aqui – eu ajudo: 18 mil contos é o equivalente a 90 mil euros. É um valor ridículo, não é? Mas a história piora: nunca foram pagos. Seja como for, não há dinheiro que pague o inestimável. Alguns destes monstros continuam por aí e, de tempos a tempos, voltam à rua para capitalizar o medo, soltar a besta para ela esticar as pernas e apanhar ar. Vivemos tempos difíceis, que parecem inverter os ponteiros do relógio e fazer o mundo andar para trás. De repente, passou a haver espaço para discursos que legitimam o racismo, a xenofobia, o preconceito, o sexismo e outros tipos de violência. A besta que matou o Alcindo continua à solta e – como uma fera acossada que fica na sombra, a alimentar-se de ódio, à espera do seu momento – regressa, agora, com uma força renovada.
No seu discurso do Dia de Portugal, o Presidente da República disse: “o 10 de junho invoca o passado, mas quero, sobretudo, dizer futuro, reconstrução, novos jovens, novos residentes, nacionais e estrangeiros, novos sonhos, para amanhã e para depois”. Dia 10 de junho é dia de lembrar aquilo que Portugal é, mas também aquilo que Portugal não é. Continuemos a celebrar a presença portuguesa no mundo mas, também, a presença do mundo em Portugal. O Alcindo tinha 27 anos cheios de amanhãs que lhe foram roubados pelo racismo. Este não é o meu país. No meu país respira-se ar limpo. A melhor forma de celebrar Portugal, hoje e sempre, é de portas abertas a todos e todas, de janelas abertas a esse ar limpo do futuro. Foi num dia 10 de junho que a besta matou o Alcindo. A história é conhecida, mas eu vou continuar a contá-la. O Dia de Portugal é, também, o dia dele – para que não se repita, para sabermos o que somos e o que não somos. Para o ano faz 30 anos que a besta matou o Alcindo. Está na hora de pagarmos o que lhe devemos.

 

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