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“Minimalismo digital” e tecnofeudalismo

08 de janeiro de 2026 às 11 h30
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Bem-vindos a 2026! Que cada um dos vossos 12 desejos para o novo ano se concretize!

Numa perspetiva de decisões orientadas por dados (data-driven), quais serão os desejos de Ano Novo mais frequentes? A Inteligência Artificial, associada à pesquisa Google na “Vista Geral de IA”, indica-nos “felicidade, saúde, sucesso, novos começos, alegria, amor, prosperidade, novas aventuras, sentido de propósito, realizar os seus sonhos” e eu acrescentaria “mais tempo para lazer, família, desporto, ar livre, descansar”. Se as 24 horas do dia são iguais para todos, que estratégias podem criar horas extra? Cal Newport, docente na Universidade de Georgetown, EUA, onde leciona Ciências Informáticas, tem escrito recorrentemente sobre o tema da atenção, foco e da perda dos mesmos por exposição exagerada à tecnologia (sim, poderá parecer suspeito, sendo Cal docente da área de TI, mas talvez, precisamente por isso, não nos devamos espantar).

No seu livro “Minimalismo Digital – viver melhor com menos tecnologia”, de 2019, expõe algumas das estratégias, as quais passam por minimizar “distrações tecnológicas”, passando mais tempo sozinho, eliminando as interações nas redes sociais (onde refere “Não faça gostos”) e dando prioridade ao lazer, investindo no foco e na atenção. Num dos seus livros, em 2016, já se dedicava exclusivamente à atenção, concentração intensa e foco no trabalho: “Deep Work: a concentração máxima num mundo de distrações”). Newport indica que nunca teve uma conta numa rede social, usa pouco o telemóvel – e, por isso, está menos exposto à intrusão dos algoritmos na sua vida – mas que o feedback obtido na sequência dos seus livros o fez pensar, não apenas no foco no trabalho, mas também na forma como a tecnologia nos impede de nos desligarmos mesmo nos momentos de lazer, em que uma pausa deixa de ser uma pausa=pausa e passa a ser uma pausa=telemóvel+redes+mensagens escritas…

O que tem o Minimalismo digital a ver com o Tecnofeudalismo? Yanis Varoufakis, Economista e antigo Ministro das Finanças da Grécia (conhecido mundialmente pelo destaque que obteve quando a Grécia esteve sob monitorização da Troika), deu destaque ao termo no seu livro “Tecnofeudalismo: ou o fim do capitalismo” (outubro/2025), onde argumenta que o novo capitalismo resulta em novas formas de feudalismo, em que os senhores feudais atuais são os donos das grandes empresas de tecnologia. Sabemos que, hoje, 9 das 10 mais valiosas empresas do mundo são empresas de Tecnologias de Informação: Nvidia, Microsoft, Apple, Alphabet (que inclui a Google), Amazon, Meta Platforms (Facebook, Instagram, WhatsApp), Broadcom, Saudi Aramco (a única exceção da lista dedica-se à energia), TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company) e Tesla / Berkshire Hathaway. Ora, essas empresas determinam o que vemos, o que gostamos, o que compramos, em quem votamos, o que guardamos na nuvem, as apps que usamos e treinamos com os nossos dados, mantendo-nos prisioneiros na nossa “própria teia” e vendendo os dados que lhes oferecemos “de bandeja”.

Como se combate este modelo? Precisamente com Minimalismo Digital, onde optamos por tomar conta da nossa vida, do nosso tempo e do rumo que pretendemos dar ao tempo de qualidade do qual pretendemos usufruir. Refrear a acumulação digital tal como se de produtos físicos se tratasse. Se os promotores do Minimalismo Japonês nos indicam que podemos viver com menos de 150 objetos, talvez também possamos viver com menos “gostos” (libertando-nos da pressão da validação por outrem), menos de 150 fotos no mesmo cenário, menos de 150 comentários a dizer o mesmo. Não será esta uma boa forma de começar o ano?

Autoria de:

ISABEL Pedrosa

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