Espetáculo da Escola da Noite explora ideia de uma humanidade ferida
Escola da Noite estreia na quinta-feira, em Coimbra, o espetáculo “Pareciam homens ao longe | Fotografia: Eduardo Pinto
A Escola da Noite estreia na quinta-feira, em Coimbra, o espetáculo “Pareciam homens ao longe”, que junta três peças do dramaturgo brasileiro Gil Vicente Tavares ligadas por uma ideia comum de humanidade ferida e desespero de falta de perspetivas.
O dramaturgo assume, nesta produção da companhia de Coimbra, a sua primeira encenação fora do Brasil, num espetáculo no Teatro da Cerca de São Bernardo (TCSB) que junta três peças curtas do autor: “Praça de Guerra”, “Os Javalis” e “Os Amantes II”.
Um encontro entre um homem e uma mulher num bar onde percebem ser de lados opostos de uma guerra que destruiu tudo à sua volta, uma invasão de javalis que devasta a humanidade sobrando apenas duas pessoas no mundo – confinadas a uma casa -, e um casal que se depara com a avaria da sua única televisão.
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Apesar de as três peças assumirem linguagens distintas, as histórias acabam por se ligar “por essa ideia de uma humanidade ferida, da solidão partilhada, do desespero de falta de perspetivas”, disse à agência Lusa o dramaturgo e encenador.
O título do espetáculo é resgatado de uma das frases de “Os Javalis”, em que uma das personagens, quando questionada sobre como eram as caras dos javalis, diz que “pareciam homens ao longe, mas só de bem perto é que se via o quanto eram repugnantes”.
“Essa frase tem muito a ver com este tipo de dramaturgia, sobre o quanto as coisas vão sendo reveladas e desveladas, dentro de um ambiente fechado”, aclarou Gil Vicente Tavares.
O premiado dramaturgo brasileiro não esconde a influência do absurdo no teatro – escreveu uma tese sobre isso – também presente no espetáculo que estará em cena no TCSB até dia 31.
“No absurdo, as personagens são como se fossem entulhos de humanidade, em que se pegam vários restos, fragmentos dessa humanidade”, disse, considerando que esse tal entulhamento está também presente no espetáculo, até de uma forma visual.
Entre as três peças, apenas uma – a primeira – vislumbra uma possibilidade de conciliação, num cenário de Márcio Medina, que começa “meio confuso” e que depois se arruma de uma forma “clássica, quase frontal”, quando “tudo desanda” no espetáculo.
O texto seco e de estilo direto, centrado na situação dramática, explora também aquilo que mais interessa a Gil Vicente Tavares: “A inquietação”.
“Nós chegámos onde chegámos pela inquietação, porque a gente aprendeu a falar, a gente aprendeu a pegar em ferramentas, a gente aprendeu a plantar, a viver em sociedade, a criar regras para conviver em sociedade, porque estávamos inquietos. Mas também estávamos inquietos para invadir o vizinho e derrubar o vizinho e matar o vizinho para comer melhor”, notou.
O dramaturgo disse que “são alguns poucos inquietos que fazem as coisas incríveis e as desgraças da humanidade”, e considerou que, além da inquietação, interessa-lhe a passividade, por o mundo viver numa espécie de jogo da corda – com inquietos de um lado e passivos do outro.
“Neste espetáculo, também está presente essa tensão entre a passividade e a inquietação”.
Para Gil Vicente Tavares, não lhe interessam peças que falam do agressor que bate no imigrante ou no imigrante enquanto vítima – “do rei que é malvado e do vassalo que é castigado” -, mas da pessoa que fica de fora, a ver sem agir.
“Essa terceira figura, que está a observar, atónita, é a própria vítima e algoz, por conta da sua inação. É essa personagem que me interessa – esses fragmentos de humanidade que me interessam”.
Para mostrar a violência no mundo e as injustiças, basta às pessoas pegar em jornais, notou.
“A gente sabe disso tudo. Então porque é que eu preciso de dizer isso no teatro? Se quer denunciar algo, liga para o Disque Denúncia [serviço gratuito de denúncia no Brasil]. Se quer mandar uma mensagem, pega no Whatsapp e manda”, sublinhou, considerando que, ao teatro, importa inquietar.
O espetáculo tem sessões de quinta-feira a domingo (com exceção do dia 24 de maio) e os bilhetes custam entre cinco e dez euros.
