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Empatia: o novo imperativo educativo

29 de janeiro de 2026 às 11 h26
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A OCDE prepara-se para discutir, num webinar internacional, um tema que durante décadas foi tratado como ornamento pedagógico: a empatia. Não como virtude privada, mas como competência pública, estruturante, indispensável para escolas que pretendam formar cidadãos capazes de viver em sociedades diversas, tensas e profundamente interdependentes. A pergunta que dá título ao encontro – Why should we care? – é, na verdade, um alerta: se ainda precisamos de perguntar, é porque continuamos a ignorar o essencial.

Durante décadas, a escola portuguesa, como tantas outras, refugiou-se no que é fácil de medir: notas, rankings, percentagens, curvas de Gauss. Mas aquilo que realmente sustenta uma comunidade escolar viva e justa nunca coube, nem caberá, numa pauta. A capacidade de cooperar, de escutar, de compreender o outro, de resolver conflitos sem violência, de construir relações de confiança, tudo isto permanece invisível aos exames, mas é decisivo para a vida democrática.

No meu livro Dogmas e Fantasmas da Educação – Paradigmas pedagógicos em conflito (Lisboa, Atlantic Books, 2026), defendo precisamente esta mudança de foco: a escola não pode continuar a ser um campo de batalha onde se treinam rivalidades, comparações e ansiedades que tantas vezes desembocam em violência. Deve ser um espaço de amizade, de entreajuda, de descoberta mútua. Digamo-lo sem rodeios: a felicidade não é um luxo, é um critério de qualidade educativa. E a empatia é o seu fundamento.

Nos últimos anos, a palavra florescer ganhou força no debate educativo global, muito por influência de experiências nórdicas, como as dinamarquesas, que colocam o bem estar e as relações humanas no centro da aprendizagem. Florescer é crescer com raízes e com horizonte; é aprender a ser, não apenas a fazer.

Em Portugal, esta visão encontra expressão concreta na Florescer, Associação de Educação Global, co fundada e dirigida por Maria Teresa Mendes, que tem procurado reinventar a escola a partir de práticas disruptivas, colaborativas e profundamente humanas. Licenciada em Organização e Gestão de Empresas e Mestre em Ciências da Educação, a sua proposta não é apenas inovadora; é sintomática de uma mudança de época. A educação do século XXI não pode limitar se a transmitir conteúdos: tem de formar pessoas capazes de viver juntas.

O desafio colocado pela OCDE é claro: se sabemos que a empatia é essencial, porque continuamos a tratá la como acessório? A resposta só é possível com coragem política e visão estratégica. Temos de integrar competências socioemocionais nos currículos de forma explícita e rigorosa; formar professores para trabalhar relações, conflitos e cooperação; criar ambientes escolares seguros, inclusivos e emocionalmente inteligentes; desenvolver instrumentos de avaliação que respeitem a complexidade humana; valorizar práticas pedagógicas que promovam a amizade, a colaboração e o bem estar. A empatia não é uma moda pedagógica. É uma condição de sobrevivência democrática.

O que une a reflexão internacional e iniciativas como a Florescer é a convicção de que a escola deve ser um lugar onde cada criança encontra espaço para ser, sentir e crescer. Um lugar onde o sucesso não se mede apenas por classificações, mas pela capacidade de construir relações, cuidar dos outros e contribuir para o bem comum.

Trazer a empatia para o centro da educação não é um gesto romântico — é um imperativo civilizacional. Uma escola que não cultiva empatia fabrica isolamento. Uma escola que a assume como fundamento constrói futuro. O que está em causa não é apenas ensinar melhor: é decidir que tipo de sociedade queremos ser.

Autoria de:

José Afonso Baptista

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