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Em busca da bonança

10 de fevereiro de 2026 às 10 h15
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As tempestades que atualmente afetam o nosso País, deixam marcas profundas. Em primeiro lugar, nas pessoas — nas famílias que veem as suas casas danificadas, nos trabalhadores impedidos de exercer a sua atividade e nas comunidades subitamente privadas de serviços essenciais.

A todos eles é devida uma palavra de total solidariedade. Mas os impactos destas ocorrências extremas estendem-se muito para além do imediato e colocam desafios sérios ao tecido empresarial e, por consequência, à economia no seu conjunto.

Para muitas empresas, especialmente pequenas e médias, uma paragem forçada por um período indeterminado pode representar um dano irreversível. Não se trata apenas da perda de alguns dias de faturação. Trata-se da quebra de contratos, da impossibilidade de cumprir prazos, da perda de clientes, da deterioração de stocks, de equipamentos danificados e, em muitos casos, de uma tesouraria que não está preparada para absorver um choque desta dimensão. É que mesmo quando a atividade pára, os custos continuam a correr.

Importa ainda compreender que os prejuízos raramente ficam confinados a uma única empresa. Vivemos num sistema económico assente em cadeias de valor interdependentes. Quando um fornecedor falha, a produção abranda; quando a produção abranda, a distribuição é afetada; quando a distribuição falha, o consumidor final sente o impacto. Assim se criam prejuízos em cadeia, difíceis de quantificar no imediato, mas bem reais e com efeitos prolongados no tempo.

A estas consequências económicas soma-se um dano social significativo. Empresas obrigadas a suspender atividade reduzem horários, recorrem a lay-off ou, nos casos mais graves, cessam contratos. Cada empresa parada representa menos rendimento disponível, menos consumo e maior pressão sobre os mecanismos de apoio social. A economia local sente-o rapidamente, sobretudo em territórios onde o tecido empresarial já é mais frágil.

Perante este cenário, a rapidez da resposta é determinante. Seguradoras, banca e Estado desempenham aqui um papel crucial. Processos excessivamente burocráticos, lentos ou descoordenados podem agravar uma situação já de si crítica. O acesso célere a indemnizações, linhas de crédito de emergência ou apoios públicos pode ser a diferença entre a retoma e o encerramento definitivo de uma empresa. Reconhecendo a complexidade destas intervenções, importa que, em contextos excecionais, existam também respostas excecionais, mais ágeis e pragmáticas.

Não pode igualmente deixar de se referir a importância das infraestruturas essenciais, em particular da rede elétrica, em todas as suas etapas, bem como do abastecimento de água. A reposição rápida destes serviços é condição básica para que empresas e pessoas possam, gradualmente, retomar a sua atividade “normal”. Sem energia e água, não há produção, não há serviços e não há vida económica possível.

Talvez o mais inquietante de tudo isto seja o facto de estarmos perante um novo contexto. Aquilo que durante anos foi ignorado pela maioria — por não fazer parte das nossas preocupações habituais — tornou-se agora um alerta evidente. Os prejuízos imediatos já ascendem a largos (muito largos) milhões de euros. Os impactos futuros, esses, são ainda impossíveis de calcular com rigor.

Entre incêndios, tempestades, secas e temperaturas extremas, há um novo clima que se afirma. Perante ele, torna-se inevitável pensar, mais cedo do que tarde, que passos podem ser dados num caminho ainda indefinido, mas que permita tornar a nossa sociedade e as nossas empresas mais resilientes e menos expostas a este tipo de calamidades. Planeamento, prevenção, adaptação e cooperação entre sectores público e privado deixarão de ser opções para passarem a ser necessidades. Contratar um seguro para um bem essencial não pode ser um opcional, segurar o dano que possa resultar da privação da sua utilização passar a ser uma necessidade.

Se nada mudar, a probabilidade de, no futuro, sofrermos impactos ainda mais graves é elevada. Ignorar esta realidade terá um custo — económico, social e humano — que seguramente nenhum de nós quer nem está preparado para suportar. Até lá, que a solidariedade de todos se junte à resiliência de quem sofre — porque só dessa combinação pode nascer a bonança.

Autoria de:

Christophe Coimbra

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