Educação: Em busca do tempo perdido
A Infância Esquecida: O Nosso Verdadeiro Pecado Original
O título não é original. À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust, é talvez o título mais conhecido da literatura universal. É nele que as célebres madeleines se tornam símbolo dos afetos mais profundos, daqueles que nos ligam à infância e ao amor maternal. O leite da mãe não foi apenas alimento: foi a matriz dos vínculos que nos acompanham enquanto a memória nos assiste. A primeira infância permanece connosco para lá da vida de quem nos deu a vida.
Proust morreu há mais de cem anos, mas as suas memórias continuam vivas. A educação é uma avenida larga da memória, alimentada pelo sabor doce do cuidado e da presença. Quando esquecemos estas raízes, empobrecemos o crescimento da mente e apagamos o potencial dos afetos que sustentam uma vida plena.
A palavra “educação” é polissémica. Tantas são as suas modalidades e nuances que, para muitos, parece perder sentido. E, entre todos, os políticos e governantes são frequentemente os que têm a memória mais curta: esquecem os momentos fundadores, os passos mais firmes, as evidências mais sólidas. Na história portuguesa, a educação da infância foi quase sempre a mais ignorada, a mais desprezada, a mais esquecida, com consequências profundas.
Basta recordar que as primeiras iniciativas de educação pré escolar, surgidas nos anos 80 do século XIX, foram filantrópicas e religiosas e o Estado Novo manteve um modelo assistencialista até 1974. Só com a Revolução se despertou para a urgência da educação de infância e apenas em 1986 a educação pré escolar foi reconhecida como parte integrante do sistema educativo português. A expansão – ainda incompleta – é já obra do século XXI. Tanto tempo perdido. Atrevo-me a imaginar: se o Marquês de Pombal, em 1759, em vez de expulsar os jesuítas, tivesse criado uma rede estatal de jardins de infância para todas as crianças dos dois aos seis anos; e se, logo depois, tivesse implantado uma rede de escolas do 1.º ciclo para todas as crianças dos sete aos doze anos, Portugal teria entrado no século XIX como o país mais rico da Europa. Sonhar é fácil; a realidade foi outra. Chegámos ao século XX com cerca de 80% de analfabetos, enquanto países como Noruega, Dinamarca, Suécia, Suíça ou Alemanha já tinham erradicado o analfabetismo. Qual foi o segredo deles? Aumentaram a escolaridade em harmonia com as ordens religiosas, enquanto Pombal e Joaquim António de Aguiar travaram uma guerra perdida contra um povo profundamente identificado com a religião cristã. O povo rejeitou a escola pública. O analfabetismo cresceu à rédea solta.
“Disparate”, dirão alguns. “E os liceus? E a universidade?” É verdade que Portugal tinha instituições prestigiadas que formavam elites. Mas formar elites não é formar um povo. Educar nobres e clérigos – uma minoria ínfima – não cria desenvolvimento económico. Quando os liceus surgiram, a percentagem da população escolarizada era mínima; a que chegava à universidade, insignificante. O que gera riqueza não é formar os filhos dos ricos, muitas vezes ociosos; é formar todos, para uma sociedade culta, inteligente, ativa e produtiva. É isso que distingue os países ricos. E é isso que os nossos governantes, desde o início da escola até hoje, raramente compreenderam.
Os liceus nasceram e cresceram em vagas sucessivas desde o liberalismo (1836–1860), sobretudo nas capitais de distrito. A expansão só se completou no Estado Novo, entre 1930 e 1970, sempre com as mesmas marcas: elitismo e exclusão. Salazar acarinhou esta herança, reservando os liceus para a elite que ocuparia os quadros da administração e da governação. Liceus e universidades mantiveram-se fechados à maioria dos cidadãos, quando a estratégia inteligente teria sido abrir portas a todos e integrar todos na cadeia de produção de alto rendimento. Formar apenas os ricos foi perpetuar desigualdades: os ricos mais ricos, os pobres ainda mais pobres. Esse foi o pecado original, iniciado pelos jesuítas, continuado por Pombal e por Joaquim António de Aguiar, e consolidado por Salazar. O pior é que ainda hoje não fomos absolvidos desse pecado. Hoje lutamos para substituir esse rumo por três palavras: Equidade, Diversidade, Inclusão. Com elas, a história da educação portuguesa teria sido outra e a qualidade de vida do nosso povo não teria encalhado nos cérebros adormecidos de tantas gerações de decisores. É com estas palavras que queremos ir em busca do tempo perdido e colocar Portugal entre os países mais letrados, mais cultos, mais competentes e mais felizes do planeta. Vale sempre a pena recordar Marcel Proust para reencontrar e recuperar o tempo perdido.


