Turismo
Cristina Azevedo - Consultora
Fui, por estes dias, a Barcelona.
Por razões de trabalho visitei muitas vezes esta cidade há 20 anos atrás e guardei sempre a imagem de uma cidade fascinante. Uma mescla da monumentalidade europeia, mais a norte, quase Haussmaniana mesclada com a irreverencia futurista de Gaudi. Futurista de natureza e não de máquinas.
Tive um verdadeiro choque.
A cidade está abafada por hordes de turistas. Em filas nas Ramblas, nos Museus, na Sagrada Família, na Casa Batllo, no parque Güell.
Os restaurantes tradicionais desapareceram. A histórica Casa Leopoldo no Raval já não conta com a hospitalidade de Rosa Maria Calver, que foi casada com um toureiro português, e é por milagre que ainda tem a fotografia de Vasquez Montalban por cima da sua mesa de sempre. Digo, por milagre, porque quando Rosa Maria decidiu fechar, El Raval já era um bairro perigoso e degradado… de tal maneira que o restaurante histórico, palco de tertúlias intelectuais e conspirações políticas se transformou num Chinês. Foi recentemente resgatado mas, sintomaticamente , quando lá fui almoçar, estávamos só os dois…
Em conversas com gente da terra percebi a angústia de quem não consegue arrendar casa ou não consegue andar de carro, tal é saturação das avenidas e a impossibilidade de estacionar. Percebi a revolta de quem vê os seus centros culturais de sempre exorbitantemente caros e /ou barrados por filas labirínticas e permanentes.
Vi a quantidade de comunidades migrantes a necessitar de exigentes cuidados de acolhimento mas também de pedagogia sobre as regras a seguir nos países para onde vêm.
E percebi igualmente a inquietação da galopantemente crescente falta de segurança.
Fui fortemente avisada para não passear nas Ramblas, o que é a mesma coisa do que, no Porto, me impedirem de visitar a Ribeira, de andar de metro a partir do fim da tarde e o meu hotel, perto de um conhecido mercado de frescos, apesar de ter portas automáticas, só abria a hóspedes e por chamada.
Não sei bem o que isto significa, mas senti-me inquieta e triste. Achei simplesmente que Barcelona estava pior. Tenho a impressão que todos, pelo menos aqui pelo Porto, começam a sentir mesmo. Vamos deixar que aconteça??


