“Apropos Mondego Diluvium
Nestes últimos dias, o sereno Mondego viu-se possuído das feições assustadoras de Adamastor e, auxiliado por um Zéfiro enlouquecido, juntos passearam com a Rhuína pelas planícies de Coimbra. Um raríssimo fenómeno meteorológico conhecido por “sting jet” que pela sua violência e ineditismo bem que podia ser caracterizado com aspectos mitológicos.
A história da região de Coimbra é pautada por frequentes fenómenos diluviantes, estando estes até intrinsecamente ligados à origem do primeiro registo histórico de um mosteiro de estimação submersível. Todos nós já vimos algures fotografias das grandes cheias na Baixa, ou do parco pé-direito que restava visível do Convento Velho, mas não surpreenderá aos leitores saber que estes eventos antecedem até a ciência fotográfica.
Aliás, tão significativos foram os dilúvios que ocupam uma parte considerável da descrição que é feita à região no livro “Bellezas de Coimbra & Memória Topográfica e Descritiva (…)” de António Corte-Real e Francisco Gusmão. Neste livro -que na verdade são dois- os autores dedicam vários capítulos a descrever cheias de Coimbra.
Em 1831 por três dias que choveu tendo o rio formado um terreiro de detritos na antiga ponte e entrado pela Baixa acima. Em 1843, uma similar cheia faz da Quinta das Lágrimas uma ilha, a Praça de Sansão um vasto mar e o Largo de Santa Cruz um cruzamento para barcos.
As comparações com Veneza são recorrentes, mas nestes casos, mais pobre e miserável. Até então, cria-se que a maior cheia tinha sido a de 1821, que por si só já excedera a então “grande” cheia de 1788. Mas na altura, não estavam a contar com 2026…!
“Ó Mondego se te pintassem
Com a tua pose simples e esguia
Usavam o céu como fundo
Eras uma aguarela de vida…”
