Temos (mesmo) de (voltar a) falar sobre… os exames
Tinha muita vontade de não vos escrever sobre os exames mas não foi mesmo possível: é algo que está demasiado “colado” ao que esta coluna tem escrito ao longo dos anos, à teoria e prática dos sistemas de informação e dos seus fatores críticos de sucesso e às boas práticas de transformação digital. Ponto prévio: o Ministro Fernando Alexandre é corajoso e isso ninguém pode negar. Por experiência, sabemos que mesmo que algo esteja e funcione declaradamente mal, ao tentarmos mudar – supostamente para melhorar – estamos a expor vulnerabilidades conhecidas mas também outras que estavam escondidas, novas dificuldades, erros e críticas.
É preciso “estofo” para gerir essas expectativas. Há muitos anos que a metodologia de correção dos exames não mudava. Mal ou bem, funcionava, os prazos cumpriam-se e os estudantes e as suas famílias sabiam com o que contar. Pontualmente, havia preocupações com a dificuldade de um ou outro exame ou com alteração de regras de exames a realizar para acesso ao Ensino Superior, como foi o caso do ano passado. E isso leva-me ao ponto seguinte: quanto mais não fosse por todas as dificuldades sentidas no ano passado no Acesso ao Ensino Superior(provas supostamente de elevado grau de dificuldade, menos estudantes concluíram o 12.º ano, exigência de 2 provas para candidatura e muitas escolas de Ensino Superior, em particular Politécnico, perderam mais de 20% dos seus colocados), o Senhor Ministro não devia ter realizado esta mudança este ano: aprendemos no 5.º ano em Ciências da Natureza que, usando o método científico e para se saber o efeito que a alteração de uma variável tem num sistema, devíamos mudar apenas uma variável de cada vez…
Ainda assim, mudou-se, rompendo com uma metodologia onde se alterou Infraestrutura, Processo e o papel dos diversos agentes envolvidos (Pessoas), alicerces da Transformação Digital. Não conheço os detalhes sobre o desenvolvimento do projeto e acredito que tenha seguido as boas práticas.
Na verdade, em Sistemas de Informação, é obrigatório mapear os requisitos, como funciona o processo antes da mudança (“As-Is”) e como se pretende que seja (“To-Be”), e, nessa transformação, ainda na fase de análise, há que garantir que se conseguem identificar os riscos e gerir a mudança.
Mesmo num cenário em que tudo funcionasse bem, era fundamental perceber como se migraria de um sistema para o outro, garantindo que o sistema se baseia em infraestrutura robusta, defende a segurança dos dados e que há governação do sistema e das tecnologias da informação, em particular, atendendo à complexidade envolvida. Creio que certamente existiram testes exaustivos (garantia da qualidade) e uma auditoria (pelo menos interna) ao novo sistema, o que, ocorrendo, ajudaria a mitigar potenciais riscos.
Finalmente, é inegável que se deram passos para que nos aproximássemos dos países onde a digitalização dos exames já existe. Todavia, ao tentarmos essa aproximação, esquecemo-nos de toda a preparação prévia que qualquer mudança deste tipo prevê e das óbvias diferenças culturais. Afastarmo-nos do papel não evitou que os envelopes tivessem de ser abertos e validados, cada uma das folhas de papel tivesse de ter sido digitalizada, numa das 70 máquinas adquiridas para o efeito, certamente sob a supervisão de pessoas, que as equipas do serviço de exames realizassem longas maratonas, que professores classificadores estivessem demasiados dias à espera de ter acesso aos exames na plataforma, que a plataforma não guardasse devidamente os registos, que exames de estudantes distintos se misturassem…
Valeu a pena ser corajoso? Essa coragem já tinha começado pela criação de um super-ministério agregando todos os graus de ensino, do pré-escolar ao ensino superior, pela alteração de um grande número de regulamentos e plataformas que garantem o funcionamento de cada um dos ciclos de ensino. Saberemos se valeu a pena quando houver dados finais sobre o sucedido: quantos erros reportados, provas reapreciadas, alunos afetados, horas de professores, dias perdidos, calendários modificados e atrasos nas colocações no Ensino Superior. E não tendo esses riscos sido este ano suficientemente mitigados, o que se aprendeu e como funcionará o sistema no próximo ano?
Boas férias!

