Cuidar em Portugal
Cuidar de alguém devia ser uma opção livre, consciente e, acima de tudo, acarinhada e valorizada. Em Portugal é apenas um acto de profunda resistência e, felizmente, em muitos casos, de profundo amor. Há muito que se reclamava em Portugal a aprovação de legislação sobre os cuidadores informais, que existem desde sempre.
Desde 2019 que existe o Estatuto do Cuidador Informal, com promessas de apoios e de conciliação entre a vida familiar e profissional. Nesta conciliação, quanto ao Estatuto de cuidador, tem-se em conta a possibilidade de o cuidador trabalhar, o que muitas vezes não é possível. Na lei, prevê-se Plano de Intervenção Específico, equipas de saúde e um subsídio para o “cuidador principal”.
Na vida real, a história é outra, bem diferente, que agora conheço fora dos diplomas legais. O meu pai não tem turnos, nem folgas, nem férias, nem uma noite de descanso. Com a ajuda da família mais próxima, são 24 horas a cuidar da minha mãe. Há medicamentos a dar a horas certas, idas ao médico que não se podem falhar (sempre na esperança de não haver uma greve ou um adiamento, normalmente de meses), vigilância constante. Nenhum deles tem direito a nada do que está previsto na lei.
Porquê? Porque o “cuidador principal” não pode trabalhar nem receber subsídio de desemprego. Porque os rendimentos do agregado excluem. Porque a burocracia come o tempo que já não existe. Porque o Estatuto exige que a pessoa cuidada dê consentimento com declaração médica, como se uma pessoa acamada conseguisse facilmente ir à Segurança Social. A burocracia estatal, impávida e serena, coloca-se sempre acima da família, que historicamente a precede e que desde sempre a alimenta com os seus impostos.
O Estado, ao dizer que “A família é a primeira linha de cuidados”, demite-se de cuidar, de construir uma sociedade solidária. É que depois não facilita para que a família cuide. Dificulta até ao limite das forças de quem já tem toda a sua atenção e forças dedicadas a cuidar de quem ama. O que temos é um Estado que não quer saber das famílias, muito menos dos que “dão trabalho”. As famílias, se as houver, que tratem dos cuidados dentro de casa. O Estado apenas se bate palmas aos familiares que se sacrificam, quando a isso se presta. É desumano. E é economicamente absurdo. Um cuidador esgotado adoece. Um cuidador sem apoio abandona (esta parte não se aplica ao meu pai). E quando abandona, quem paga é outra vez o SNS e a Segurança Social, só que muito mais caro.
Pois quem, a final, cuida do cuidador? Quem dá uma tarde de folga ao cuidador para ir ao médico, para sentir o vento na cara, tomar um café sem se sentir culpado e perder-se algumas horas durante um passeio? Quem trata da depressão e do esgotamento de quem está 24h a ver alguém que ama dependente?
O Estatuto existe no papel. Os apoios existem nas brochuras. Entre as paredes de quem cuida, o que existe é cansaço, culpa e solidão. Felizmente, no caso que conheço de mais perto, há esperança e muita resiliência, mas nem todos os cuidadores são o meu pai e restantes familiares. Se queremos mesmo envelhecer em casa, como politicamente se afirma (o que significa fora dos hospitais), então temos que tratar quem cuida como um profissional de saúde. Com formação, com apoio psicológico, com direito a descanso, com compensação financeira adequada.
Enquanto isso não acontecer, continuamos a falhar duas vezes: falhamos aos que estão doentes, maioritariamente idosos, porque não cuidamos deles como merecem. E falhamos às famílias, porque as obrigamos a escolher entre o amor e a própria vida.
Obrigado Pai!

